domingo, 11 de dezembro de 2011

Por mares que gosto de navegar: comer ou tragar?


Maio, 25
"Cada vez me apetece menos classificar os rapazes, dar-lhes notas, pelo que eles «sabem». Eu não quero (ou dispenso) que eles metam coisas na cabeça; não é para isso que eu dou aulas. O saber - diz o povo - não ocupa lugar, porque o que vale, o que importa (e para isso pode o saber contribuir e só contribuir) é que eles se desenvolvam, que eles cresçam, que eles saibam «resolver», que eles possam perceber.
No exercício escrito deste período, um dos temas, como atrás se viu, era o seguinte: «Que verso preferes? Este: Que a não puderam comer, ou este: Que a não puderam tragar? Porquê? 
Houve quem respondesse admiravelmente e ingenuamente (ingenuamente digo eu a pensar em certas explicações-pastiche universitárias para certos pormenores literários). E houve rapazes, como o Ludovico, que preferiram comer, porque ignoravam o verdadeiro sentido de tragar e lhes pareceu esta palavra desusada ou pouco bela. Ora o Ludovico em tudo me satisfez; a valoração deste tema era de 1,5; dei-lhe 20 no exercício, não me importando nada que ele não soubesse o que quer dizer tragar.
A aula de hoje foi feita à base do exercício e foi uma aula feliz. Houve interesse, «aprendeu-se». Agradeci-lhes terem sido honestos e pessoais; mostrei-lhes que tinham sabido ler a «Nau Catrineta» e que ver se tinham sabido ler a «Nau Catrineta» fora a única preocupação do exercício; depois tratei demoradamente cada alínea, falando eu o menos possível, salientando e dando a máxima importância a tudo que eles tinham visto melhor que eu. Eles estavam a ouvir-se, por isso a aula foi serena como nunca."
Sebastião da Gama, Diário


1 comentário:

José Marinho disse...

Saudoso Sebastião da Gama, muito bem lembrado.