quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Coisas boas: filosofia!

Textos para a acção (oh, sim!)

«A transformação da espécie num princípio de identidade e de classificação é o pecado original da nossa cultura, o seu dispositivo mais implacável. Personaliza-se qualquer coisa - o que se refere a uma identidade - na condição de sacrificar a sua especialidade. Especial é, de facto, um ser, - um rosto, um gesto, um acontecimento - que, não se assemelhando a algum, se assemelha a todos os outros. O ser especial é delicioso porque se oferece, por excelência, ao uso comum, mas não pode ser objecto de propriedade pessoal. Do pessoal, em contrapartida, não são possíveis nem a utilização nem a fruição, mas apenas propriedade e ciúme.
O ciumento confunde o especial com o pessoal, o torpe confunde o pessoal com o especial. A jeune fille tem ciúmes de si própria. A mulher corajosa brutaliza-se a si mesma.
O ser especial comunica apenas a própria comunicabilidade. Mas esta é independente de si própria e constitui uma esfera autónoma. O especial transforma-se em espectáculo. O espectáculo é a separação do ser genérico, ou seja, a impossibilidade do amor e o triunfo do ciúme.»
Giorgio Agamben, "O ser especial" in Profanações

2 comentários:

José Manuel Marinho disse...

Muito interessante; fiquei com vontade de ler... Obrigado.

Ana Paula Sena disse...

Eu é que agradeço a tua atenção, Jota!

Sim, é uma excelente leitura.

Um abraço :)