segunda-feira, 21 de março de 2011

Antídoto

Spring Landscape, David Hockney (2004)

Se escrever é uma forma de afirmação, manter este espaço também o é. Portanto, cumpre-me dizer que continuo preocupada. Motivos não faltam, apesar da super-lua e da chegada da primavera, sempre tão desejada. Mas, as preocupações não pagam dívidas. Em contrapartida, fazem cabelos brancos. O que me faz pensar logo na bela madeixa branca no cabelo da Susan Sontag, que ando a ler. Vidas vividas, cabelos prateados, posso concluir. E parece-me bem. Aliás, neste nosso tempo, temos muita coisa para viver. Há sempre muita coisa para viver em todos os tempos. E nós temos isto isto e até isto ainda. Não faltaria acrescentar... Poderá manter-se a ilusão de que nos dizem tudo quanto a esta situação? Sobretudo, será que lhes dizem tudo? Mas, enquanto nos confrontamos com casos bicudos e nada compreensíveis (passe a ironia), daqueles em que os amigos se volvem inimigos e os inimigos amigos, é recomendável ir preparando o ânimo para tempos mais instáveis. Refiro-me ao que há a acontecer por aqui mesmo, neste cantinho à beira-mar plantado. Se é que há um modo previsível de tudo, ele é o da ferocidade tão característica da vida na selva, digo, da vida na polis.
Apesar de tudo, podemos festejar, já que a natureza ainda se cumpre no equinócio da primavera.

6 comentários:

anamar disse...

Sim, Ana Paula, estes ciclos ainda se vão cumprindo, no calendário e nas nossas cabeças...
E da pintura de DH, vale a pena ir vê-lo ás escolhas de Paula Rego... está lá em quantidade...
Boa Primavera...
Ana

Ana Paula Sena disse...

Tenho que ir ver isso, Anamar. Muito obrigada, não sabia. E não posso (não quero) perder. Sou muito fã do David Hockney :)

Que a primavera nos sorria! Beijinhos.

Vieira Calado disse...

Há muito tempo aqui não passava.

Mas retornei ao bom caminho...

Bjjss

C. disse...

Ai, Ana Paula, que responsabilidade esta, a de vivermos entre "a vidinha" (onde ficamos muito sentados, a bem dizer) e "a vida" (que nos pede empenho e olhos abertos para a catástrofe).
Entretanto... a amarga sensação de que uma vida nunca chega para nada.

Hoje deu-me para o desabafo, tenha lá paciência.

Beijinho e parabéns pelo que nos tem trazido aqui.

Mar Arável disse...

Pelo menos na Primavera

algo de belo

rebenta

Bj

C. disse...

"a natureza cumpre-se"...
É isso mesmo, Ana Paula.Será que podemos dizer o mesmo da natureza humana? Supondo que ela existe, claro. Mas haverá mesmo uma natureza humana? É que, a existir, o que dela se vê dá-me vontade de ir viver para junto dos koalas.

Beijinho