quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Que falta de graça na pseudo-futurologia

Fotografia de Gregory Crewdson

Eu nunca gostei de saber o futuro. Prefiro imaginá-lo. Quando se oferecem (ou querem cobrar) para me "ler a mão"... recuso. Não é só algum mau feitio, ou uma qualquer possível, mesmo que terrível, falta de fé. É mesmo uma certa e forte vontade de achar graça à vida. Em contrapartida, gosto  bastante de previsões. Em princípio, protegem-nos, não deixando de ser humanas, precisamente  porque comportam alguma margem de erro. Agora, futurologia... acho um aborrecimento (para não dizer pior). Sobretudo se é fundada em crenças, mais do que em análises rigorosas. Mas, os extraordinários futurologistas do nosso país sabem tudo acerca do que vai acontecer: daqui a um mês, daqui a dois meses, daqui a... um ano, e assim por diante. E eu já não sei se é porque eles o afirmam tão convictamente, que vai ser mesmo assim; ou se é porque vai ser mesmo assim, que eles o afirmam tão convictamente. Enfim, com um destino tão traçado, e negativamente (ouçam-se/leiam-se as notícias e as tão sábias exposições constantemente disponibilizadas), como consegue sobreviver a esperança e a vontade de construir um mundo que ainda possa ser melhor?
 
Outros horizontes

«Os modos que temos de ignorar alguma coisa são tão ou mais importantes talvez do que os modos que temos de a conhecer. (...) É possível até que seja precisamente o modo como conseguimos ignorar que define o estatuto do que conseguimos conhecer e a articulação de uma zona de não conhecimento seja a condição - e, ao mesmo tempo, a pedra de toque - de todo o nosso saber. (...) Articular uma zona de não conhecimento não significa, com efeito, simplesmente não saber: não se trata aqui somente de uma falta ou de um defeito. Significa, pelo contrário, mantermo-nos na relação justa com uma ignorância, deixar que um desconhecimento guie e acompanhe os nossos gestos, que um mutismo responda limpidamente pelas nossas palavras. Ou, para usarmos um vocabulário caído em desuso, que aquilo que nos é mais íntimo e melhor alimenta tenha a forma não da ciência e do dogma, mas da graça e do testemunho. A arte de viver é, neste sentido, a capacidade de nos mantermos numa relação harmoniosa com aquilo que nos escapa
Giorgio Agamben, "O Último Capítulo da História do Mundo" in Nudez

[os sublinhados são meus]


5 comentários:

joana padrel disse...

E muita coisa nos escapa .Como se diz aqui pelos alentejos, só sabes se estás vivo no dia seguinte, se consegues pôr os pés no chão ao acordar.

bj

TERESA SANTOS disse...

Olá, Ana Paula,
Adivinhação, futurologia(?) parece fazer parte do nosso quotidiano, ou será que já ultrapassámos essas fases?
Agora há CERTEZAS. Certezas a curto, médio, longo, longuissimo prazo.
Quem de direito(?) sabe tudo, garante firmemente tudo. Hoje, amanhã nunca se sabe!
Perante isto - e cada vez mais se queremos preservar a nossa sanidade mental -, devemos seguir o princípio de GA: "A arte de viver é (..) a capacidade de nos mantermos num relação harmoniosa com aquilo que nos escapa."
Sem dúvida, é isso mesmo. É que quase tudo nos escapa!
Abraço.

Eliete disse...

Querida Ana Paula, penso como você:prefiro imaginar o futuro.a vida é bonita pois está sempre nos surpreendendo.bjs

Strohdiek disse...

não gosto de saber do futuro também não.

ah, parabéns pelo blog! gostei bastante daqui ;)

abraços

anamar disse...

Ana,
belas reflexões..
Também tenho horror ao conhecimento do futuro.... se o soubesse tornar-me-ia um pouco manipladora, quem sabe?
Beijinho