sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Que fazer quando as coisas estão escangalhadas?

«Adora o som improvisado, dissonante, cru que criam - funk brutal, como ele às vezes diz -, e a verdade é que têm os seus fiéis seguidores. Mas não são suficientes, longe disso, e por isso ele passa as manhãs e as tardes no Hospital das Coisas Escangalhadas, a emoldurar cartazes de filmes e a consertar relíquias produzidas quando os seus avós eram meninos.» (Paul Auster, Sunset Park)


Escreve Paul Auster, no seu mais recente Sunset Park, sobre um mundo de coisas estragadas, partidas, escangalhadas e abandonadas. Que, todavia, talvez tenham conserto. Foi esse mundo que chegou até às gerações mais novas, e que foi a sua herança, logo transformada na sua crua realidade. É esse mundo escangalhado que esses jovens tentam recuperar, numa luta contra o abandono. Uma luta que nos tortura imaginar. Mas a ideia de um Hospital das Coisas Escangalhadas leva-nos a pensar que talvez não nos reste outra hipótese para um futuro melhor. Esse futuro faz-se hoje, com o não abandono das coisas. Afinal, com o não abandono do mundo.
Foi assim que voltou à minha memória um tempo no qual existia um lugar chamado Hospital das Bonecas. É certo que o tempo não pode voltar para trás, e nem deve, parece-me, mas que é feito das suas lições? Terei que o perguntar de novo a alguns jovens. Àqueles que muitas vezes conseguem ensinar-me algo acerca da simplicidade e do despojamento. Contraditoriamente. Porque têm tanto, e também tão pouco.







Imagem: fotografia de Martin Klimas


5 comentários:

poemar-te disse...

Não temos outra hipótese senão recuperar o que está "escangalhado" e evitar estragar ainda mais este mundo, se é que é possível. Obrigado pela partilha deste bom vídeo. Bom fim-de-semana. Beijo.

Eliete disse...

Ana Paula ,é verdade, houve um tempo em que havia hospitais para brinquedos quebrados. Como era gostosa a sensação de ver uma boneca recuperada.valeu, bjs, Eliete

Austeriana disse...

Olá, Ana Paula! :)

Gostei muito do post e este episódio, além de nos remeter para os tempos que correm, é bem curioso em relação às impressões austerianas sobre as raízes familiares do autor.
Quando o li, lembrei-me quase imediatamente da admiração que Auster sempre manifestou pela pela fabulosa capacidade de Samuel Auster (o pai)em restaurar, pôr a funcionar, recuperar aparelhos da mais variada espécie.
Será que, mais uma vez, Auster foi "beber inspiração" à memória autobiográfica?
Parece-me que sim.

Um beijinho.

anamar disse...

Ana,
antes de chegar ao final do 1º parágrafo... já estava a associar o hospital das bonecas no Rossio...
Os" hospitais das coisas etragadas" existem... o conserto é que é complicado...
Beijinho amigo e vizinho...
:))

partilha de silêncios disse...

Devemos aos nossos filhos o grande esforço de recuperar tudo o que distraídamente deixamos estragar,porque o consideravamos como adquirido.

Não vai ser fácil!!

beijinhos