sábado, 4 de setembro de 2010

Claro-escuro

 "Sem dúvida, mesmo aquele que viveu de modo mais suportável percebe que, no todo, a vida é um disappointment, (...), ou, por outra, traz o carácter de uma enorme mistificação, quando não, ostentação."
(Schopenhauer, Do sofrimento do mundo)

Sinceramente, há dias nos quais tomar nota de certas notícias constitui um verdadeiro atentado à sanidade mental. Ouvi dizer, ainda há pouco, num programa da Sic Notícias (repetição sobre o processo Casa Pia- perdi o primeiro, pelos vistos), que Portugal continua a ser um país nas trevas. Que o país esteja em tal estado tenebroso, parece-me grave. Isto, a fazer fé no que afirmam as doutas pessoas com direito a tempo de antena.
Quem se sabe vivo nas trevas e, ainda assim, nas trevas fica, mais sombrio parece ser. Pois, é que dito assim, tal como ouvi dizer, eu não gosto. Parece que estão a chamar-nos nomes... Há que admitir , no entanto, a possibilidade de a existência humana ser um longo jogo de luzes e sombras... Verdade, verdade, isto é tudo muito vago. Afinal, o que são, exactamente, essas trevas? E o que é a luz? Talvez tudo fosse mais claro se nos elucidassem começando por aí...

Posto isto, dá vontade de brincar com coisas sérias, e dizer que tudo ficaria mais luminoso neste  longo e interminável processo (um grande facto inexplicável); sim, seria um descanso, se tudo acontecesse segundo o modelo do Lie to me. Porque toda a mentira seria, então,  rápida e eficientemente desocultada. Não sendo assim, eu começo por respeitar a justiça e as suas decisões, entretanto divulgadas, e, em simultâneo, mantenho também o meu respeito pela defesa que os visados continuem a empreender acerca de si, o que lhes é garantido pela mesma justiça. Na certeza, porém, de que o caso continuará a ser um verdadeiro paradigma da história interminável...



(Agradeço ao Bicho Carpinteiro a dica relativa à divertida série Lie to me)


Imagem de Kumi Yamashita

16 comentários:

Há.dias.assim disse...

Alguns dos agora condenados continuam a dizer-se vítimas. de tanto o dizer talvez comecem a acreditar na sua mentira, mas só eles, espero!
Os crimes cometidos foram tantos ao longos de tantos anos que é preciso ser um pulha para se dizer inocente, mas quanto a isso não restam dúvidas.
Esta foi a justiça dos homens, espero que a divina seja mais justa!

José Ricardo Costa disse...

Volta, Mani, que estás perdoado...!

JR

Nilson Barcelli disse...

Nem sei do que falam os arguidos e os seus defensores quando usam expressões tão absurdas.
O que toda a gente sabe, é que o julgamento não chegará ao fim e eles nunca irão para a cadeia. Os artifícios jurídicos utilizados pela defesa, eventualmente com o beneplácito da Justiça, encarregar-se-ão de esgotar todos os prazos e os crimes de que são acusados irão prescrever.
Querida amiga, bom fim de semana.
Um beijo.

Austeriana disse...

Cara Ana Paula,
De facto, neste como noutros casos, seria excelente que o grupo «Lightman», da ficção, pudesse escrutinar todo o processo...

Um aspecto parece-me indiscutivelmente claro: houve por ali muita incompetência.

Abraço.

P.S. Fico bem contente por apreciar a série. Eu não perco um episódio! :)))

Paulo disse...

Olá, Ana Paula, felicito-a pelo post.
De uma forma geral, os comentários e opiniões que surgem a propósito do julgamento do "caso Casa Pia" assentam em convicções e não em factos: "não quero crer", "acredito que", "não posso acreditar", etc, etc...
Respeito pela justiça e sua decisões, diz a Ana Paula e não há nada mais certo para começar. Depois, procurar informação em fontes idóneas, conhecer a investigação e o que provou de facto.Quais os factos provados que levaram o colectivo de juízes a decidir como decidiu.
Tentar perceber como funciona a cabeça de um abusador de crianças, como reage à exposição pública do seu crime...
Querem habituar-nos aos julgamentos mediáticos, aí onde é possível "julgar" e condenar alguém apenas porque se veste assim ou assado, porque tem a lágrima no momento certo ou olha de frente para a câmara. Isso não é, obviamente, justiça em que se acredite.
Três apontamentos:
- continua votada ao mais absoluto desprezo a sorte das crianças (até deficientes) sistematicamente abusadas e violentadas. Como não aparecem nas notícias, não existem.
- as teses ditas garantistas do processos penais, com a possibilidade de suspensão de pena por recurso, levam a que, quem tiver dinheiro, nunca cumprirá pena. Aliás, para esses, nem deveria haver tribunais de 1ª instância, bastaria ir directo ao Constitucional (aguardando a prescrição)...
- é um abuso (outro) invocar-se qualquer paralelismo com os julgamentos em tribunais plenários como ontem ouvi.
Acompanhei vários e nunca soube de nenhum réu, "julgado"sem garantias prévias de defesa mínimas, sair do tribunal sem ser para as carrinhas celulares.

vbm disse...

É difícil assumir a presunção de inocência quando tudo leva a supor a culpa sob a capa da mentira. Pelo menos para mim, é difícil.

E mais, o Paulo, do comentário acima, acerta em cheio no tipo psicológico de que sou exemplo flagrante: "acredito que" Carlos Cruz é pedófilo; Jorge Ritto, o médico Diniz, etc.

Tal fé tem raízes no tempo, e apoio de boatos. Sempre Carlos Cruz foi uma personagem imberbe e estranha, na sobranceria petulante, indiferente à perda de dinheiro ou sumiços de audiência. Porquê? Sentia-se seguro. E compreende-se!

Mas, trai-se na mentira quando ameaça revelar nomes sonantes de outros pedófilos! Como os conhece assim tão bem? Imagino aí a razão do seu sentimento de segurança que lhe permitiu uma proverbial indiferença e sobranceria mediática de muitos anos.

No entanto, há uma coisa que eu aceito ou compreendo: a política não é uma moral, mas sim uma regulação cívica e convencional da vida em sociedade. Deve ser objectiva e igualitária. Permitir que um indivíduo se defenda da fé e fanatismo doutrém, de arbitrariedades, da ilegalidade!

Que o façam então, os réus.
Porém, eu desprezo-os.
E creio-os culpados.

anamar disse...

Ana Paula, escrevi um "longo" comentário que parece que sumiu, não foi assumido pelo blogger...
Veremos...
Beijinho
Ana

Ana Paula Sena disse...

Há dias...: são crimes hediondos.

Infelizmente, segundo se afirma, é um grave distúrbio que é incurável. Portanto, um igualmente grave problema social. Como lidar com tais pessoas?

Parece-me positivo que algum avanço tenha sido alcançado nesta triste história (apesar de eventuais dúvidas e contradições). Mas, estou certa de que ainda muito há-de correr sobre ela...

Ana Paula Sena disse...

José Ricardo: :) !

Ana Paula Sena disse...

Olá, Nilson :)

Pois, há coisas que fazem muita confusão. Que crimes destes possam prescrever, por ex.. Que pessoas condenadas nunca cumpram pena. Etc.
Isto, atendendo à presunção de inocência que devemos sempre respeitar. Mas, se há crime, é preciso chegar a alguma conclusão. Das três, uma: ou se conclui pela culpa, ou se conclui pela inocência, ou ainda pela impossibilidade de provar quer uma, quer outra.
Claro que nada disto é simples, mas é difícil confiar numa justiça de impasses permanentes.
Provar pode ser difícil, julgar ainda muito mais. Afinal, a justiça é possível, ou não?
Algo para todos pensarmos... Digo eu, claro. Vale o que vale, e nada mais.

Abraço e votos de uma boa semana, meu amigo.

Ana Paula Sena disse...

Olá, Austeriana :)

Seria excelente, claro!

De todo o modo, embora, neste caso, se trate de ficção, talvez este tipo de recursos venha a ser cada vez mais utilizado no combate ao crime. Trata-se de interpretações com certo fundamento, e que podem dar algumas pistas interessantes.

Só vi três episódios. Fiquei curiosa com a série, quando se referiu a ela. Achei-a bastante divertida.
Um aspecto que retive (ao qual achei muita piada) foi quando, a dado momento, alguém diz: "Estás a ver ali, em C5? Aquilo é mentira. Ele mente. Logo, é culpado."
Isto perante uma imagem que mostrava a análise detalhada, por computador, de uma determinada expressão de um rosto.

Fantástico!

Infelizmente, parece que a realidade ultrapassa sempre a ficção, no que toca a surpreender-nos, e também a preocupar-nos.

Um abraço.

Ana Paula Sena disse...

Paulo: muito obrigada pelo seu comentário.

Pois é, essa questão, a de ajuizarmos com base em crenças, é um grande problema.

Em questões de justiça, a isenção e a imparcialidade deveriam ser cultivadas. O que é bastante difícil, por vezes, mesmo impossível. Sobretudo se tivermos connosco a exposição permanente dos envolvidos num processo, através da sua mediatização. Isto coloca um tremendo problema: se, por um lado, é importante termos acesso à informação (o que implica uma série de riscos no que toca a sermos manipulados); por outro lado, às tantas, os julgamentos quase que se fazem na praça pública.

É um problema difícil de resolver. Provavelmente, não existe uma solução perfeita, mas, do ponto de vista prático, é preciso resolvê-lo de algum modo, sob pena de vivermos numa confusão generalizada e perigosa.

De facto, também esses aspectos que assinala me deixam algo estupefacta: hoje em dia,muitos condenados nunca vão para a prisão! - sinceramente, há uma série de questões técnicas que desconheço, mas que parecem ter um efeito bastante perverso, em especial quanto à ideia que formamos da nossa justiça; a quase inexistência de uma abordagem séria e rigorosa da situação das vítimas destes abusos! (não será fácil manter o tom adequado, mas não será impossível encontrá-lo). Acresce ainda toda a responsabilidade da instituição em causa: como é que esquemas destes persistem praticamente ad eterno, sem obstáculos?! Quer dizer, oiço e leio por aí que os abusos continuam...!!

Este é um caso perante o qual me sinto como no Castelo de Kafka: parece que estou quase a chegar lá, mas nunca o alcanço efectivamente.

Ana Paula Sena disse...

Vasco (vbm): obviamente, respeito a tua opinião.

Quando começamos a pensar muito no caso, no espírito torpe que está por detrás destes crimes (ainda que eu tente ver o abuso como resultado de uma doença), é quase impossível não ficarmos revoltados.

Sinceramente, essa história de agora virem nomes cá para fora... Quer dizer, podemos tentar compreender, mas na verdade, se eram conhecidos do visado, não deveriam ter sido divulgados antes?! Pessoalmente, julgo que a credibilidade do que possa surgir agora fica bastante afectada.

Concordo com o que dizes sobre a regulação cívica da sociedade, objectiva e igualitária. É que não há outra solução. Como seria se tudo andasse a reboque dos ânimos de cada um?!

Muito obrigada pelo teu comentário.

Ana Paula Sena disse...

Olá, Anamar,

De facto, não chegou aqui esse outro comentário. Mas, agradeço na mesma a gentil intenção.

Às vezes, o blogger comporta-se estranhamente :)) Também já sucedeu comigo.

Um beijinho de volta.

vbm disse...

Obrigado, pela tolerância da tua reflexão ao meu comentário, pois receava ter deixado a impressão de igualar a minha crença a uma sentença!

Na verdade, percebo que é um sentimento de desconfiança que me leva a desprezar os réus desde o princípio do escândalo, o que não fundamenta um argumento e menos ainda um julgamento.

Aceito que a justiça aja com frieza, sem espírito de vingança, com a preocupação de garantir a ordem e a equidade das sentenças.

Mas isso é a obrigação dos tribunais; a opinião pública ou a moral da comunidade, move-se em juízos de valor que podem coincidir ou não com as sentenças judiciais, embora o ideal seja ambas realizarem a justiça com acerto.

Ana Paula Sena disse...

Abraço, Vasco :)