sábado, 9 de maio de 2009

Se a Europa Acordar


Pensar a Europa com a provocação de Peter Sloterdijk:

«O nome de Europa designa uma região do mundo na qual, de forma indiscutivelmente singular, impera uma interrogação sobre a verdade e a qualidade de vida. Nem na época contemporânea os Europeus deixaram de acreditar totalmente que só o que é justo e digno do ser humano possui a longo prazo direito ao êxito. Não é por acaso que eles, nos seus conceitos de ciência, de democracia, de direitos humanos e de arte, introduzem algo da sua ideia característica da verdade. Estes conceitos focalizam-se no desafio europeu lançado à espécie: criar formas de vida que considerem o ser humano como uma criatura fundamentalmente rica e capaz de grandeza. É nesse desafio, que serve de referência aos bons Europeus, que a paixão europeia desde tempos imemoriais tem o seu ponto de focalização. Só quando ele entra em jogo podem os Europeus querer obstinadamente os seus êxitos e apreciá-los duradouramente. Só então escapam à sua lassidão e ao seu niilismo. Poder ter êxito é saber-se animado por uma verdade que resiste às depressões. Após mil e quinhentos anos de experiências sobre as asceses, as piedades, as nostalgias, as investigações e os esforços, os Europeus sabem - ou julgam saber - que ser pobre, deserdado e abandonado não é de maneira nenhuma uma característica intrínseca do ser humano. Na medida em que o saibam, são capazes de maiores esforços. Quando esquecem este saber, ficam mais perdidos e mais desprovidos de motor do que ninguém nesta terra. Os Europeus, na medida em que produzem esforços, são pois também e sempre rebeldes à miséria. Com um pathos que lhes é perfeitamente específico, sonham com as artes - na medida em que a arte, garante da abertura das criações, constitui para eles o grande contraveneno de todas as tentações induzidas pela miséria. (...)»
in Peter Sloterdijk, Se a Europa Acordar


O autor é um dos mais importantes filósofos alemães da actualidade.
Relativamente à Europa, defende uma visão não-imperialista. Uma Europa imperialista estaria impregnada, em grande medida, do modelo dos Estados Unidos da América. Ressuscitaria também essa espécie de síndrome imperial que remonta ao Império Romano.
O seu apelo, se assim se pode falar, refere-se antes ao renascer de uma cultura europeia naquilo que ela tem de melhor, por exemplo, a perene consciência dos direitos humanos que anima uma postura anti-miserabilista.
Uma leitura que se faz para reflectir, interrogar, concordar ou contra-argumentar...

«Mal a Europa acordar, as questões da verdade regressarão à grande política. A prazo, os êxitos da Europa dependerão da capacidade de os Europeus acreditarem nos seus direitos ao êxito. A formulação dos direitos humanos inclui uma cifra que designa o direito ao êxito e que eles opõem a todo o mundo. Quando os tempos mudam, há que exprimir de nova maneira a significação desses direitos. O pensamento mais profundo da Europa é o de que se deve resistir ao desprezo. Se esta reflexão é inescapável, é porque continua também verdadeira para os seres cansados e vencidos. Na última translação do Império na Europa, a sua recusa do desprezo do humano, desprezo que habita todos os imperialismos, deve assumir pois uma forma política. O direito da Europa é a sua grande declaração sobre o ser humano: a sua injustiça prendia-se e prende-se ainda com a exclusão da maioria daquilo que representa o melhor de nós. (...)»
in Peter Sloterdijk, Se a Europa Acordar


Imagens: pesquisa do Google com Lady Godiva (1897) de John Collier

18 comentários:

RAA disse...

O questionamento tem sido uma característica da civilização europeia,a capacidade de se pôr em causa -- de Sócrates à Revolução Francesa, do Império Romano à União Europeia. A liberdade individual é, porventura, a sua maior conquista.

mdsol disse...

E o conceito de pólis! E a democracia! O respeito pelo Outro, individual e colectivo.
:))

ARTISTA MALDITO disse...

Olá Ana Paula

É uma reflexão muitissimo pertinente, eu concentro-me neste aspecto do seguidismo da Europa em relação à cultura estadudinense. É certo que essa cultura partiu da Europa, com a premência da Palavra e em demanda da utopia, mas desenvolveu formas próprias que nos são exteriores.

Por isso, penso que a Europa deve repensar-se e com urgência. Para mim seria ideal que Rousseau deixasse de ter tanta influência e Locke começasse a ser mais considerado.

Beijinhos e um óptimo fim de semana:)
Isabel

poemar-te disse...

Querida, Ana Paula, tenho muitas reticências, quanto à ideia de uma qualquer Europa una. É um continente muito diversificado, um grande mosaico, com imensas culturas próprias. Nasceu a ideia de uma Europa para, idealisticamente, fazer face ao poderio EUA e deu no que deu, por que a pensem - livre mercadoria e o modelo americano a vingar; eles têm os seus seguidores em todos os cantos e movem as sias influências em todos os sentidos. Na Europa, um "segredo" e uma estratégia chama-se Rússia. Imagine-se a vergonha e arrogância: o "hino europeu" ser um texto de Beethoven... que parvoíce, arrogância alemã, subserviência dos estados membros. Se quisessem uma verdadeira europa una e múltipla, convocavam-se diversos compositores de todos os estados e far-se-ia um hino ecléctico. Que pinderiquice, foi - está andar que o que interessa são os bancos e a mercadoria a rolar. Talvez esteja a ser apressado, mas... Então BArroso, presidente... Esse?... Que mandou POrtugal às urtigas e por ele estamos no que estamos. A Eurpoa está nas mãos de patos-bravos como ele e Sócrates. Mas lutar é lutar; no entanto não chega encontros conferências. Esfregam as mãos; acção directa - não às eleições europeias, por exemplo.
Bom, desculpa o alongamento das palavras. O teu blogue está lindo; este tema fascina, porém... O teu blogue está lindo. Um beijinho e bom domingo; estou a fechar o trabalho. PS- A Isabel anda com beleza a mais ? Não estará a arranjaroutro esgotamento. Cria-se assim, quando a vigília diminui. às vezes preocupa-me. Bom vou deitar, senão quem fica esgotado sou eu.

observatory disse...

li com atençao o que escreveu

bom...

seguidismo ...

será noam chomsky americano?

se nao é....

diga-me pf :)


na verdade somos um velhissimo continente

com tudo o que isso tem de bom e de mau

eu vou gostando de aqui estar

carregar uma informaçao genetica indo europeia nao me desagrada de todo

achaque estou a ficar louco?

que merda de orgulho é este?

sao 5:43

deve ser disso :)

vbm disse...

É verdade que o ideal europeu respeita o indivíduo e repudia o miserabilismo. Mas valoriza a produção de bens comercializáveis, sem distinção da sua utilidade ou desutilidade relativa, o que não favorece a valorização dos bens intangíveis gratuítos ou não facilmente transacionáveis. De qualquer modo, é preferível esse defeito materialista ao esoterismo charlatão das religiões alienantes.

Violeta disse...

Olá Ana Paula
Hoje estou pouco inspirada para responder ao teu belíssimo post que nos pede uma verdadeira reflexão . Fiquei a pensar "E porque demora tanto a Europa a acordar?"
Bom domingo

Porcelain Doll disse...

Como velho continente... talvez a Europa tenha algumas obrigações no que concerne à sabedoria do Homem e da Humanidade... logo, outras tantas em relação a olhar criticamente para a cultura norte-americana... (nomeadamente, com a devida desconfiança, como um velho sábio olha para um jovem arrogante e emproado, julgando-se detentor da verdade); acho que fazemos parte de um continente com todo o potencial para colocar uma certa ordem na balbúrdia... e isso não tem de implicar menos êxito, muito pelo contrário. É mesmo uma questão de acreditar no direito ao êxito... Concordo com as ideias deste filósofo... aliás, a cultura europeia sempre me agradou muito e sinto orgulho de poder fazer parte dela... :) Claro que existem os reversos da medalha (sempre...); talvez... maior conservadorismo? Enfim, isso terá as suas vantagens e desvantagens...

Beijinhos!

Cöllyßry disse...

Esquecem a Alma do Homem, com todo avanço no tempo...

Belo espaço,onde a reflexão se faz...

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| Ö,)
|),”
|Terno beijo


ölhår_Îñðîscrëtö...Å ¢µ®¡ö§¡dädë

via disse...

De acordo, há certos conceitos que estão estafados e outros como este de desprezo que anunciam e exaltam. Absolutamente contra todo o tipo de desprezo!
boa semana bjo

Vieira Calado disse...

A Europa está a ser uma ideia complicada.

Cumprimentos

Frioleiras disse...

para mim.............

o mundo começa e acaba na europa....................

sei absolutamente que para si é uma tremenda asneira o que estou a dizer mas......

adoro esta civilização (judaico-cristã) ... estes 2000 anos.

As minhas preferências vão,
em absoluto,
para as artes, para a música, para a religião que dominou este continente e sinto que a mais nenhum poderia pertencer pelas apetências, pela empatia por tudo...............

Sou europeia por raça e, sobretudo, por vocação..........

lastimo, imenso o "amolecer" desta civilização, desta cultura, deste continente, destas raças ..........

um bj ,
grd, Ana Paula..................

ARTISTA MALDITO disse...

Olá Ana Paula

Sempre que me cruzo com o Jota fico logo bem disposta, que diz ele?:)) Pronto, lá foi ele apressado!

Passo só para lhe desejar um excelente início de semana.

Beijinho grande
Isabel

arion disse...

Oxalá não nos apercebamos tarde demais dos valores que temos vindo a esquecer em nome de dinheiros e aparências. No ocidente todo, bem entendido. Beijo!

alice disse...

gostei muito de ler, ana paula. penso que é importante pensarmos na nossa posição no mundo, enquanto portugueses e europeus. um grande beijinho.

A.S. disse...

Ana Paula,

Eu acho que a Europa já acordou!
Porém, já percebeu que acordou tarde demais!!!


BjOss

ze disse...

Conquanto ela (Europa) se julgue um pouco mais formiga e menos cigarra, talvez nos entendamos todos estes nós descendentes de outros sim esses merecedores de tais confiança, elogios e orgulho.
Até lá,
não resisto, porque prefiro olhar para o mundo novo ou novo mundo,
marte, vénus, jupiter ou américa,
porque pelo menos por lá algo muda!

obrigado no entanto pelo post anti- velho do restelo, que é hoje e aqui o meu papel,
"it's a dirty job but somebody has to do it!"

Donnola disse...

a ideia não é nova, n sabia é que havia um europeu q tivesse "filosofado" nesse sentido.

esta ideia costuma estar associada a "ocidentalismo" pq de facto é o que temos a mania de impor ao mundo, por exemplo: a burka, a poligamia e outros costumes que os ocidentais criticam à priori. A vida tribal, a nudez e a tantas outras caracteristicas que olhamos e avaliamos como ocidentais quando não pior com preconceitos judaico-cristãos.

o que me espanta é que ainda haja filosofos e pior ainda cientistas (ok estes são normalmente mais ingénuos sobre as coisas do Homem) que ainda não tenham percebido que o mundo NÃO gira à volta do ocidente


os europeus estão a precisar de escutar as outras ideias, o mundo não acaba na europa, mas não acaba mesmo!!!!