quinta-feira, 23 de abril de 2009

Mudanças - 1



Se o tempo é um aspecto da existência que sempre me atraiu, a mudança, e conjunto de transformações geradas pelo fluxo do devir, é um outro aspecto que não me interessa menos. Não é de estranhar, já que um transporta em si o outro.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
muda-se o ser, muda-se a confiança;
todo o mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
diferentes em tudo da esperança;
do mal ficam as mágoas na lembrança,
e do bem (se algum houve), as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
que já coberto foi de neve fria,
e, em mim, converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
outra mudança faz de mor espanto,
que não se muda já como soía.

-Luís de Camões-

Portanto, - e que bem o cantou o poeta - tudo muda... Surge-me a reflexão, sobretudo a propósito de uma conversa a que assisti recentemente, num daqueles raros programas de televisão aceitáveis, que permitem fugir um pouco ao desgaste do quotidiano. Aí, e então, debatiam-se as mudanças da nossa actual sociedade a vários níveis. Mas, principalmente, no contexto profissional.

Ora, o que bem conheço desse contexto actual é um conjunto de exigências cada vez maiores, num permanente desafio à mudança. No geral, e de acordo com os especialistas, não há como escamotear a questão: com o passar do tempo, diga-se claramente, com a idade, as pessoas têm mais dificuldades em adaptarem-se a mudanças. Aliás, o senso comum diz-nos isso com expressões como "de pequenino é que se torce o pepino", "burro velho não aprende línguas", etc.

Agora, isto parece-me um desafio do tamanho das nossas esperanças para a espécie humana (se é que as temos): com uma população cada vez mais envelhecida, com um futuro onde o que se projecta é uma cada vez maior esperança média de vida... como irá lidar esta população com as mudanças que se dão, cada vez mais, a um ritmo vertiginoso?

A necessidade de mudança acelerada toca-me, e toca a todos, actualmente. Por exemplo, a informatização da minha vida profissional aumenta todos os dias, e as actualizações necessárias surgem a um ritmo quase alucinante. Até onde chegará esta possibilidade de reajustamento contínuo das minhas performances? De acordo com as previsões, tende a diminuir... Mas o desafio permanece. Existirá alternativa? Alguma forma de inverter a inexorável seta do tempo?



Imagem DAQUI - um lugar com imagens alusivas às alterações climáticas

9 comentários:

RAA disse...

Estou num pc de café e por isso sem ambiente de leitura de posts.
Mas não quero deixar de assinalar a foto lá de cima. Uma beleza :|

Artista Maldito disse...

Olá Ana Paula

Esta questão do tempo, e da nossa alucinante passagem por um presente, que cada vez mais nos foge, é, de facto, uma preocupação acrescida pelas mudanças muito rápidas que se têm feito sentir desde os anos sessenta.
Muitas vezes pensei sobre o que Harold Bloom diz sobre o mundo virtual, deixando-me confusa. Por um lado a rapidez da comunicação retira profundidade ao nosso pensamento, por outro lado, é esta "tela" sem profundidade que nos permite "ir" quase à velocidade do tempo. E eu disse "ir", propositadamente.

Não sei mesmo que significado terá nesta dimensão o verbo chegar.

Devo ter divagado, mas foi por ter ficado a pensar seriamente se haverá alternativa para as exigências a que o tempo nos submete e as que o nosso corpo permite.

Beijinhos
Isabel

alice disse...

já dizia o filósofo, saberás tu melhor do que eu quem, que a mudança é a única constância do mundo. e basta repararmos em nós, que mudamos desde que nascemos, a nossa aparência vai sofrendo sucessivas transformações, e claro que o mesmo se passa interiormente. gostei de reler camões e de reflectir contigo, ana paula. beijinhos.

Mar Arável disse...

25 de Abril

de novo

Frioleiras disse...

mudar é viver............

(de repente ... eu q adoro o meu pequeno ninho, a minha casinha pastel de nata e doce....... senti que, dolorosamente, teria de sair dela, depois de longos anos a ter amado e ela me ter dado muita Paz......... Senti que a decadência se aproximava dela e do próprio prédio em que se situa.

Eu poderia atrasar a sua decadência fazendo-lhe pequenas alterações/obras que lhe tirassem as rugas mas............ as do prédio... não tenho possibilidade de intervir............

Sem óculos ela ainda me parece a minha casinha bem amada mas com óculos já lhe pressinto a decadência.

O receio de que mesmo sem óculos lhe visse já, muito em breve, as pregas da velhice ..... levou-me a decidir a MUDANÇA de um dia para o outro..................dolorosamente..............

é que as mudanças nem sempre aquecem os nossos corações.........

bjnh

observatory disse...

pense bem ...

se tiver que chegue para pagar a agua e os sabonetes...

para que serve correr tanto?



a nossa unica tarefa é enganar a vida...
fazer de conta que nao nos doi e seguir criando :)andando.

ja viu os discursos do DR socrates? oiça bem aquilo. trabalhamos em nome de um bem estar e um portugal que ja nao existe.
acedite que vai tudo pro nun'alvares :)(c'agora é santo).

ana

revoluçao contra a sociedade dpo espectaculo. com lata total :)




bjºamigo

c.

Eliete disse...

Ana Paula, realmente as mudanças cada vez mais rápidas nos atordoam.Ficamos impacientes e temerosos. Tenho pensado se conseguirei dar conta delas.Também não podemos esquecer das nossas resistências à tudo que é novo.
Cora Coralina (uma grande poeta do nosso pais) dizia:"...recria tua vida, sempre, sempre.Remove pedras e planta roseiras e faz doces.Recomeça."
um abraço, Eliete

C o n t r a c e n a disse...

"Os Dias Levantados" é uma ópera do Pinho Vargas. Vi-a no São Carlos há 11 anos - não me esqueci.

Olha, há muito pouco tempo, por motivos pessoais, fiz uns testes psicológicos / psicotécnicos.
Os resultados foram (ainda) óptimos ;)

Beijinhos.

Porcelain Doll disse...

Curioso... também a mim o tempo e a mudança me fascinam...

Em relação ao contexto profissional... creio que a tua questão é verdadeiramente pertinente... mas falo como uma pessoa para quem o contexto profissional é absolutamente essencial; sinto que é onde passo a maioria do meu tempo e não estou para fazer dele uma provação como vejo acontecer com tanta e tanta gente... acho que a chave pode estar na forma como encaramos as coisas... na maneira como nos relacionamos no trabalho... curiosamente a maior ameaça que vejo não é a necessidade de adaptação, mas a massificação de tudo, a mania de centralizar as coisas por forma a rentabilizar recursos... é preciso haver cooperação e entendimento... dessa forma talvez consigamos abrandar um pouco o tempo...

Beijinhos!