domingo, 14 de julho de 2013

Civilização

o tempo que passamos a tentar recuperar o que nos foi tirado, é mais tempo perdido

Cito de memória a passagem de um diálogo do filme "Este País Não É Para Velhos". Esquivei-me durante muito tempo a vê-lo: só o título... sempre me pareceu de uma extrema crueldade. Mas o filme é bom e cruel, e o livro talvez seja melhor e igualmente implacável.
O tempo é ele próprio cruel e é da sua irreversibilidade que esta quase não-história nos fala. Pressupõe que alguma coisa importante e inesquecível nos é tirada à medida que o tempo passa... E depois: ficamos a olhar em frente sempre em busca do que perdemos? ou olhamos o futuro à procura do que ainda não conquistámos?  Afinal, há alguma coisa para conquistar a partir de uma certa idade? A aceitação de que estaremos desfasados de tudo um belo dia e de que o preferível será "encostar às boxes", enfim... é como esbarrar logo contra uma parede, mas pode ser ao mesmo tempo quase tudo o que há. E se é o que há, siga... Já não há lugar para aqueles que não encaixam na perfeição num mundo de alucinante desprezo pelos fracos - colocados em confortáveis asilos de higiénica perversidade: só para alguns; ou em asfixiantes e esquecidos redutos: para tantos outros. Enquanto isso, lá fora os fortes tentam esquecer que um dia serão fracos...

Uma visão terrivelmente pessimista, talvez. Uma visão realista, tendencialmente, situados que estamos no coração de países violentos e irremediavelmente para velhos.

3 comentários:

vbm disse...

Não vi o filme e não conheço o livro. Porém, vi um fragmento televisivo da história dos Neanderthais, dizimados quando os Homo sapiens migraram de África para a Europa. Há uma nova versão dessa extinção! Durante oitocentos mil anos, eles viveram na Europa submesos na Idade do Gelo. Os Sapiens, descobriu-se, não dizimaram Neanderthais nenhuns antes copularam entre si e houve miscigenação, não propriamente esporádica e rara, mas extensa e frequente. Hoje, dos Neanderthais restam ossos raros e, descobriu-se, alguns genes do código genético, particularmente entre os europeus: pouco, um a três por cento da sequência total do código, varaiando de indivíduo para indivíduo... e, aparentemente, tais genes pareceram não 'servir' para nada, mas, apurou-se, activam a imunidade do organismo contra doenças. Assim se eclipsa no mar do tempo toda uma espécie ancestral, semelhante à nossa... :)

Ana Paula Sena disse...

Sobre Neanderthais, tema que em tempos muito me interessou, li um livro que se intitula precisamente "Neandertal", John Darnton - ficção. Coloca uma hipótese interessante, a de comunicarem com uma linguagem telepática: um sistema imagético, não verbal. Enfim, algo inconcebível para nós, já que os conceitos nos surgem ao mesmo tempo que o verbo, o qual faz praticamente parte do nosso ADN - creio.

De qualquer forma, julgo que o nosso futuro depende da possibilidade de escapar desta espécie de darwinismo social etário que muitos defendem e preconizam, mais ou menos obscuramente.

Faty Laouini disse...

Não vi o filme, e tb me pareceu que o título era cruel. O seu post é excelente, ainda que se trate, por obra do filme, de uma visão pessimista que preferimos, muitos de nós, adiar para longe na linha do tempo - "lá fora os fortes tentam esquecer que um dia serão fracos..."
Talvez esse pessimismo seja realismo, vou por aí, e isso é cruel, sim.