terça-feira, 2 de abril de 2013

há mar e mar há ir e voltar

regressar é quase como viver: olha-se para as horas. são seis e meia a madrugada move-se negra hoje o tempo mal se distingue no relógio pequeno em cima da mesa. há tanto para contar mas não vale a pena o tempo é indistinto e o que fosse dito agora já o teria sido num tempo antes ou mesmo escrito por outras mãos com dedos a apertar a caneta vincando o papel de peripécias pensamentos imagens afectos e desafectos e essas coisas todas que fazem vidas.
escrever é sempre um regresso. se há que voltar também há que escrever. só mesmo por isso. já tudo foi dito. enquanto para lá das vidraças o céu se abre em dilúvio e as luzes brancas trilham os céus incendiando o coração em sobressaltos a mente absorve o cansaço da busca da forma para dizer exactamente o mesmo de antes. há seres antiquíssimos a povoar as ideias e os actos do agora. o relógio pode parar mas as horas são de repetição. 
o vento parou não sei porquê e a chuva entretanto inunda a atmosfera de odores misturados a chuva no asfalto a chuva nas ervas selváticas que minam jardins abandonados a chuva nos corpos desprotegidos o óleo na chuva que corre no asfalto.
a subir a serra a subir a serra e a descer a serra tempo de regresso. para cima o ar carregado de névoa. o vislumbre das laranjas pesadas prestes a tombar. o verde molhado português. até à costa junto ao alarido das gaivotas o rio pesado por entre as palmeiras. tempo de regresso tempo de repetir e voltar a dizer com sentido o sem sentido. tempo de deixar amarelecer as imagens e de esperar as flores. o barquinho de pesca oscila na memória e navega devagar no pensamento. até ao mar aberto depois das janelas que a manhã ilumina pouco a pouco até ao cheiro a maresia. ao longe os navios fogem do presente. só depois disso sei que é hora de voltar.

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