terça-feira, 4 de dezembro de 2012

da estante antiga


Não descubro no meu íntimo, outro tesoiro além da chave que, desde a hora em que te conheci, me tem aberto esta planície infinda, este prado feito da repetição de uma única planta, sempre mais alta, cujo pêndulo, de amplitude cada vez maior, há-de acompanhar-me até à morte. A morte, cujo relógio feito de flores campestres, relógio belo como a minha pedra sepulcral erguida ao alto, voltará a andar, na ponta dos pés, para cantar as horas que não passam. Porque é a vez de uma mulher e de um homem, que até ao fim dos séculos serão, fatalmente, tu e eu, perpassarem, sem uma única vez se virarem para trás, no seio da oblíqua claridade, até perder de vista, até aos confins da vida e do esquecimento da vida, por entre a erva fina que à nossa frente corre para a arborescência. E essa erva dentada é feita dos mil e um elos invisíveis que na profunda noite do esquecimento calharam ligar ao meu o teu sistema nervoso.
André Breton, O Amor Louco

em tempos, com este livro na mão, queria gostar dele e não conseguia. cheguei a achá-lo uma parvoíce completa, pois não lhe encontrava sentido algum.
entretanto, a acção do tempo diz-me, cada vez mais, que o único caminho de uma existência com sentido, deve encontrar-se algures por aqui... mas isto é porque o tempo já esculpiu em mim o suficiente para que eu me entregue verdadeiramente à preocupação de encontrar um sentido para a vida. claro que isto pode também ser dito de modo curto e objectivo: o tempo já passou por mim. e parece-me bem.

2 comentários:

analima disse...

É estranho. Mas, mesmo não compreendendo, aquilo que escreveu fez todo o sentido para mim. :)

Ana Paula Sena disse...

Isso parece-me excelente, Analima! :))

Um Bom Ano Novo de 2013 para si! O melhor possível!