domingo, 14 de outubro de 2012

povo (II)

Esforçarmo-nos por pôr em evidência comportamentos políticos «populares» supõe também admitirmos que o povo constitui um grupo identificável, suficientemente homogéneo apesar da sua diversidade social efectiva. Este grupo popular não poderá ser creditado de uma consciência de classe, cujo aparecimento é de resto inseparável da existência de uma ideologia claramente formulada e de organizações encarregadas de a transmitirem. Mas seguir-se-á daí que não tenha qualquer consciência política, ainda que muito sumária? E se a tiver, de onde provém ela? Entre os diferentes sentidos da palavra popular - aquilo que é manifestação própria do povo (movimentos populares), aquilo que o povo assimila e eventualmente transforma através dessa assimilação (a religião popular), aquilo que utiliza, consome e aprecia (a literatura popular) -, será o primeiro sobretudo, e ocasionalmente o segundo, que reteremos. Através desta escolha, supomos - o que não é forçosamente evidente - que o conjunto de ideias e de representações, de formas de organização e de acção que os historiadores muitas vezes associaram ao povo, lhe pertencem como características próprias, não são nem o decalque de ideias oriundas das classes dirigentes, ou emanando mais precisamente de uma classe social - a classe operária, por exemplo -, nem enfim uma criação sui generis resultante do próprio processo político, ou correspondendo simplesmente a um aspecto de um fenómeno muito mais amplo, como a mobilização política, por exemplo. (...)
Admitir a existência de comportamentos políticos populares não conduz somente a uma melhor compreensão de uma fase determinante da história das nossas sociedades contemporâneas. Menos inactual do que se poderia crer, é uma operação que pode também, segundo cremos, conduzir a uma abordagem mais fina da política hoje.
Raymond Huard, Existirá uma «política popular»?

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