domingo, 23 de setembro de 2012

para a ordem dos dias


Vê-se que o espaço público falta cruelmente em Portugal. Quando há diálogo, nunca ou raramente ultrapassa as "opiniões" dos dois sujeitos bem personalizados (cara, nome, estatuto social) que se criticam mutuamente através das crónicas dos jornais respectivos (ou no mesmo jornal).
O "debate" é necessariamente "fulanizado", o que significa que a personalidade social dos interlocutores entra como uma mais-valia de sentido e de verdade no seu discurso. É uma espécie de argumento de autoridade invisível que pesa na discussão: se é X que o diz, com a sua inteligência, a sua cultura, o seu prestígio (de economista, de sociólogo, de catedrático, etc), então as suas palavras enchem-se de uma força que não teriam se tivessem sido escritas por um x qualquer, desconhecido de todos. Mais: a condição de legitimação de um discurso é a sua passagem pelo plano do prestígio mediático - que, longe de dissolver o sujeito, o reforça e o enquista numa imagem "em carne e osso", subjectivando-o como o melhor, o mais competente, o que realmente merece estar no palco do mundo. 
José Gil, Portugal hoje - o medo de existir


E os outros, hein?!

1 comentário:

vbm disse...

Embora o carisma e a autoridade de certos pensadores exerça uma influência e fascínio por vezes difícil de situar em limite ponderado é imperioso atender às razões e argumentos de cada conclusão ou recomendação.

Outrossim, a força da opinião pública tende a destituir qualquer conclusão adversa mesmo que cristalinamente demonstrada ou simplesmente defendida por pensadores carismáticos.

Sempre me encantou o dito de Platão, «Por onde a razão, como uma brisa nos levar, por aí devemos ir.» :))