sexta-feira, 7 de setembro de 2012

escrito por Larsson


Era improvável, na sua opinião, que Morell tivesse deixado escapar fosse o que fosse. A solução para o mistério não ia ser encontrada nos relatórios policiais. Todas as perguntas imagináveis tinham sido feitas, todas as pistas seguidas, até as que pareciam absurdamente inverosímeis. Não lera todas as palavras do relatório, mas quanto mais avançava na investigação, mais obscuras se tornavam as pistas e indicações. Não ia encontrar nada que o seu antecessor profissional e a respectiva equipa de especialistas tivessem deixado escapar, e hesitava na abordagem a adoptar em relação ao problema. Até que acabou por ocorrer-lhe que a única via razoavelmente prática que lhe restava era tentar descobrir os motivos psicológicos dos indivíduos envolvidos. 
A primeira pergunta tinha que ver com a própria Harriet. 
Quem era ela?
Da janela da cozinha vira acender-se uma luz no primeiro piso da casa de Cecilia Vanger, por volta das cinco da tarde. Bateu-lhe à porta às sete e meia, precisamente quando estava a começar  o noticiário da TV. Ela abriu envolta num roupão de banho, os cabelos húmidos embrulhados numa toalha amarela. Mikael pediu imediatamente desculpa pelo incómodo e fez menção de retirar-se, mas ela indicou-lhe a sala de estar. Ligou a máquina de café e voltou a desaparecer no primeiro piso. Quando reapareceu, vestia jeans e uma camisa de flanela aos quadrados. 
- Já começava a pensar que não ia aparecer.
- Devia ter telefonado, mas vi a luz acesa e vim num impulso. 
- Tenho visto as luzes acesas em sua casa a noite inteira. Tem o costume de ir passear depois da meia-noite? É um bicho da noite? 
Mikael encolheu os ombros.
- Tem calhado. - Olhou para um grupo de manuais escolares empilhados em cima da mesa da cozinha. - Ainda ensina?
- Não, como directora, não tenho tempo. Mas ensinava história, religião e estudos sociais. E ainda me faltam alguns anos.
- Faltam?
Ela sorriu.
- Tenho cinquenta e seis. Não tardarei a reformar-me. 
- Ninguém lhe dá mais de cinquenta, mais até para os quarenta.
- Lisonjeiro. E o Mikael, quantos tem?
- Bem, já passei dos quarenta - respondeu ele, com um sorriso.
- E ainda ontem tinha vinte. Como o tempo passa. A vida é assim. 
Stieg Larsson, Os Homens Que Odeiam As Mulheres


1. pois, é por causa de passagens como esta (mas não só) que gosto da trilogia de Larsson.
2. se pudesse fazer uma só pergunta ao escritor/jornalista, a propósito deste trecho, escolheria esta:
- Porque é que a toalha é amarela, e não de outra cor qualquer?
 

2 comentários:

vbm disse...

Psicologicamente,...

abriu a porta...
surge envolta em roupão de banho

[presumívelmente, branco]

cabelos húmidos
embrulhados numa toalha
...
[vermelha, verde, azul, cor-de-rosa?
— que impróprias ‘cores de cabelo’]
[preta? tétrico!, castanha!?, que escuro...]
[quiça amarela, como seus cabelos louros!]

Eureka!
cabelos [louros]
numa toalha amarela! :)

Ana Paula Sena disse...

É uma interessante explicação, a tua, Vasco :)) Parece-me bastante racional, no sentido da procura de uma certa coerência ao nível da associação de imagens: cabelos loiros, logo, toalha amarela!

Terá sido assim na mente de Larsson?

Um abraço.