quinta-feira, 7 de junho de 2012

o eu dos médecins-philosophes


Queria fazer-lhe uma pergunta, disse o doutor Cardoso, o senhor conhece os médecins-philosophes? Não, confessou Pereira, não conheço, quem são? Os principais são Théodule Ribot e Pierre Janet, disse o doutor Cardoso, foram os textos deles que estudei em Paris, são médicos e psicólogos, mas também filósofos, defendem uma teoria que me parece interessante, a da confederação das almas. Explique-me essa teoria, disse Pereira. Pois bem, disse o doutor Cardoso, acreditar que somos uma unidade independente, destacada da incomensurável pluralidade dos próprios eus, representa uma ilusão, aliás ingénua, de uma alma única de tradição cristã; o doutor Ribot e o doutor Janet vêem a personalidade como uma confederação de várias almas, porque a verdade é que temos várias almas dentro de nós, uma confederação que aceita o domínio de um eu hegemónico. O doutor Cardoso fez uma pequena pausa e depois continuou: O que se chama a norma, ou o nosso ser, ou a normalidade, é apenas um resultado, não uma premissa, e depende do controlo de um eu hegemónico que se impôs na confederação das nossas almas, caso surja um outro eu, mais forte e mais poderoso, ele vai destronar o eu hegemónico e tomar o seu lugar, passando a dirigir a coorte das almas, ou melhor a confederação, e essa superioridade mantém-se até ser destronado por seu turno por outro eu hegemónico, por ataque directo ou por uma paciente erosão. Talvez, concluiu o doutor Cardoso, depois de uma paciente erosão haja um eu hegemónico que está a assumir a chefia da confederação das suas almas, doutor Pereira, e o senhor não pode fazer nada, o mais que poderá fazer é apoiá-lo. (...) talvez haja dentro de si um eu hegemónico que, depois de uma lenta erosão, depois de tantos anos passados no jornalismo a escrever os casos do dia crendo que a literatura fosse a coisa mais importante do mundo, (...) está a tomar a direcção da confederação das suas almas, deixe-o vir à tona, até porque não pode fazer de outra maneira, não o conseguiria e entraria em conflito consigo próprio (...).
Antonio Tabucchi, Afirma Pereira 

2 comentários:

Maria Josefa Paias disse...

Obrigada Ana Paula por me relembrar este texto, que estava esquecido algures numa das "gavetas" do meu cérebro.

Beijinho! :)

(nota: esta é a segunda tentativa de comentário, porque na 1.ª tive a indicação de erro. Se, porventura, aparecerem os 2, por favor apague um deles)

Ana Paula Sena disse...

Beijinhos, Josefa!

Apareceu um comentário, a segunda tentativa foi totalmente eficaz :))

...eu também gostei muito de encontrar este tema no livro de Antonio Tabucchi. Li-o recentemente.