domingo, 17 de junho de 2012

Era uma vez na Anatólia

Imagine-se um filme lento e nocturno, onde nada de muito interessante parece acontecer. É assim que começa Era uma vez na Anatólia (2011), o mais recente filme de Nuri Bilge Ceylan, e vencedor do Grande Prémio do Júri no Festival de Cannes 2011. Mas o facto de nada ter lugar de forma assombrosa pode ser bom sinal. São 150 minutos de filme e a aridez dos lugares parece vir a aborrecer. A pouco e pouco, por via dos diálogos vagarosos e da cinematografia sublime, ficamos perante uma Turquia profunda onde a vida é tudo menos fácil. Há uma viagem em busca de um corpo escondido. O percurso é algo vagueante e errante, um pouco como acontece na vida. O ambiente nocturno transforma as estepes turcas num espaço intimista que convida às confidências dos homens. O estilo road movie conduz-nos numa viagem também ao interior de cada um. A profunda escuridão é pontuada pelos faróis dos carros que serpenteiam ao longo da estrada. Até chegar a uma aldeia esquecida onde a morte se debate: é preciso construir morgues e cuidar dos cemitérios. A luz eléctrica falha onde falha o desenvolvimento. No lusco-fusco das lanternas o destino da viagem decide-se e prossegue a busca. Mas só pela manhã o corpo é encontrado.


O crime é humano, sabemos isso. O criminoso deve ou não ser tratado como tal? Como elaborar os relatórios que devem estar para além das paixões humanas, demasiado humanas? Como transportar um corpo sem o respectivo saco, esquecido negligentemente? Porque é que a ambulância está avariada? Como é possível realizar uma autópsia sem o kit adequado? Mas um computador portátil surge no deserto... O procurador é ou não parecido com Clarke Gable? É a Turquia Europa ou não?


Tudo oscila por entre visões astrológicas, fantasmas e mistérios, ou explicações racionais. A mulher está sempre presente mas invisível. Símbolo de luz e paliativo ali mesmo no centro da dureza da vida. Beleza simples e luminosa que assombra a crueza extrema do realismo.


É só o melhor filme que vi nos últimos tempos. Premeditadamente sério, é-o, mas esse é só um pequeno detalhe a considerar. Acima de tudo, sereno e belo como o conseguem ser os verdadeiros mestres.
 

2 comentários:

César Ramos disse...

Tão perfeita foi a descrição que sinto a música de fundo
nos ouvidos.
Parece um canto de sereia: há tanto tempo que não vou ao cinema...

Ana Paula Sena disse...

:)) se puder ver, César, nem que seja em DVD... aposto que ia gostar imenso deste.

um abraço cinéfilo!