domingo, 24 de junho de 2012

Cosmopolis


Ora, aqui está: um homem à espera do nada. E é essa a sensação número um de Cosmopolis (2012), de David Cronenberg. Diga-se a verdade, se há horror maior para mim, é o do confronto com o nada, o de encarar o vazio - afinal, o verdadeiro horror consiste em afirmar a sua realidade. É que o nada não existe, e o mais parecido com algo dessa natureza só pode ser um momento de transição entre uma coisa e outra. Digo eu.
Cosmopolis é um filme desagradável e difícil de acompanhar até ao fim. Podem dizer-se muitas coisas sobre ele. Mas certos aspectos merecem ser sobretudo analisados pelos especialistas de cinema, e outros, não sei, talvez pelos que antecipam deterministicamente o futuro. Eu não gostei do filme, nem o considero uma obra maior do realizador. Também não gostei da mensagem transmitida, nem sou fã do tom absolutamente cáustico de Don DeLillo, embora lhe reconheça valor literário e o considere uma boa voz de diagnóstico do mal-estar da civilização. No entanto, este é um verdadeiro filme de Cronenberg. Está lá o horror, a paranóia, a metamorfose da realidade, a relação com a máquina, etc. Mas está presente também um projecto altamente intelectual do realizador - o de mostrar cinematograficamente o poder da palavra, e a sua profunda violência. Neste filme, ela consiste num emprestar ao que se diz um dos tons mais monocórdicos e desencantados de que tenho memória. Um verdadeiro mal-estar, uma limousine claustrofóbica e o sem sentido de tudo que nos remete para um estado zero da existência. É quase dilacerante, mas também muito aborrecido, o retrato de uma sociedade tão disfuncional. Mas está lá o talento de Cronenberg, e em muitos detalhes. Sem dúvida, o projecto era um daqueles difíceis de concretizar, incluindo grande dose de diálogos desencantados e esse delirante absurdo do vaguear estupidificante pelas ruas de uma cidade onde nem a revolta faz qualquer sentido. Porque não há alternativas. Porque nem o refúgio tão up to date na espiritualidade parece conseguir resistir, olhando a morte dessa figura simbólica de um rapper sufi. O seu funeral, reconstituído brevemente, fez-me lembrar, numa das cenas de que mais gostei, esse outro funeral, vivido de forma tão intensa e mortificadora, em Imitação da Vida (1959), de Douglas Sirk. Mas como estamos longe de todo esse kitsch e de todas essas emoções aí exacerbadas...
Não sei se o niilismo em que somos levados a mergulhar pretende suscitar uma visão reformadora do capitalismo, ou se reclama uma alternativa que permanece ainda numa qualquer zona desconhecida e envolta em sombras do conhecimento humano. Mas o filme não termina por acaso com as pinturas de Rothko, por entre as fichas técnicas. De todo o modo, comparando este filme com Era uma vez na Anatólia, que vi recentemente, apetece-me dizer, analisando um pouco os dois filmes com um olhar algo hegeliano, que este último mostra o mal-estar de uma sociedade, a qual, face às duras condições de vida, quer ser Europa, e ainda acredita no capitalismo como via para o bem-estar social; ao passo que Cosmopolis mostra uma sociedade numa fase posterior do tal desenvolvimento, e que, uma vez supostamente esgotado o modelo adoptado, agora em plena decadência, reclama transformação.
Resta-me ir ver O Cavalo de Turim, para reflectir um pouco mais sobre este "chamar a atenção" para o desencanto total que a civilização ocidental parece ter gerado, e que o cinema procura veicular artisticamente. Indubitavelmente, é preciso activar toda a esperança ainda disponível dentro de nós, para aguentar tanto niilismo. Mas ignorar não vale, pois não?
Cosmopolis fez-me lembrar, de certo modo, aquelas psicopatias que levam algumas pessoas a infligir a si próprias dor. Se a sociedade está doente e indiferente, a esperança é a de que acorde!, mas para algo melhor. O problema é que, disso, o filme nada mostra.

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