quarta-feira, 11 de abril de 2012

o prazer de pensar com tantos dos bons

Alice - ilustração de Arthur Rackham

Primo Levi - (...) Mas gostaria de regressar ao que Gödel disse. Àqueles que o acusaram de ter destruído a solidez dos fundamentos da matemática, ele respondeu que, ao contrário, tinha revalorizado o papel da intuição. Por falar em intuição, o que é que, além de Borges, lhe deu tudo o que é cultura não científica - isto é, arte, literatura e música?

Tullio Regge - Eu tenho uma relação anómala com a música. Sou um maníaco de música clássica. Ignoro o rock, que, na verdade, me dá uma dor física. Talvez eu goste tanto de música porque ela não me foi ensinada no liceo. Mas o meu pai obrigou-me a ter lições de piano e alguma coisa ficou comigo. Toco piano muito mal, mas divirto-me. Para mim, a música tem a ver com algum tipo de elementos inconscientes. Os físicos, mas não só, preferem Bach. Não me sinto capaz de explicar ou quantificar esta preferência: o que é que a profissão de físico possa ter a ver com a música de Bach, eu realmente não sei. Talvez um certo ritmo natural, ou talvez, como tem sido repetido há anos, a construção bachiana seja matemática. Talvez lá no fundo Bach tenha tido intuições de um tipo matemático, que, contudo, não podem ser representadas adequadamente pelas leis da harmonia. O mesmo se pode dizer, de alguma forma, de Mozart. Não posso passar sem música, mas não saberia relacioná-la explicitamente com a minha profissão. Certo é que, se pudesse reincarnar, escolheria ser músico. 
Quanto à literatura, (...), interessei-me muito pelo Doutor Fausto, de Mann, que se centra, de facto, no tema da música. E, também, em O Homem sem Qualidades, de Musil, que teve uma educação matemática. Outro matemático é Lewis Carroll, o autor de Alice. Em física, existe um conceito designado por "grupo de Carroll", e ele descreve um mundo-limite, ficcional, numa tentativa de imaginar o que sucederia se se pudesse descrever um fenómeno numa escala em que a velocidade da luz fosse nula. Chamou-se-lhe "grupo de Carroll" em homenagem à famosa imagem paradoxal do coelho que está sempre a correr e permanece no mesmo sítio.
Diálogo sobre a ciência e os homens, Primo Levi e Tullio Regge

 

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