quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Epístolas

Pedes-me notícias: por aqui há um alto som torturante do tipo equivalente a um silêncio demasiado ruidoso. Lá está ela, dirás tu, com a tal linguagem semi-poética fechada à clareza. Mas, se eu te disser que o claro e evidente não chega para explicar este ambiente, talvez possas dar-me razão. 
Muito se diz e há factos. Podes consultá-los nos jornais. Até podes brincar e, já agora, fazer-me rir - sabes que adoro - até porque o que por todo o lado se passa é uma autêntica divina comédia, perdoe-me o Dante a comparação demasiado ambiciosa, mas este inferno é muito pior que o dele... enfim... deixo isso para uma outra carta, num outro dia, quando me der para escrever uma daquelas mais divertidas, sabes?
Estou, de repente, a lembrar-me da Epístola de S. Paulo aos Romanos, uma leitura sempre interessante - fi-la umas vezes, faz tempo, sim, no tempo das catequeses. Agora, digo-te eu, essa epístola não é nada, em termos apologéticos, se comparada com a Epístola diária da Troika & Cia. Lda. aos Europeus. São estes os tempos que correm...e, na verdade, lamento dizer-to, o dito silêncio ensurdecedor é tão vão e tão maléfico, quanto o é o imenso ruído crescente sem direcção. 
Verdade, verdade, queria também auscultar-te acerca da possibilidade de por aí receberes - de braços abertos, claro está - os meus rebentos. Prevendo-se o declínio e queda de tudo o que construímos antes, é preciso salvar os jovens. Gostava de partir também, mas, como sabes, a idade intermédia é a mais pré-definida. Fico, portanto, por aqui, ainda a cuidar da minha hipotética definição face à inexistente reforma - assim a declaram os entendidos que fazem contas.
Escreve-me de volta, por favor. Fazia-me bem confirmar que existe um lugar diferente.

2 comentários:

Fernando Vasconcelos disse...

O que se construiu apenas cairá se nos deixarmos iludir com os pseudo-especialistas das contas ... reformas incluídas. Existem lugares diferentes possíveis por aqui na terra e mesmo neste nosso rectângulo . Peço também o mesmo no que diz respeito à residência divina mas não vou desistir tão cedo de mudar as coisas aqui por baixo.

vbm disse...

Sim, andam quase todos preocupados e com razão. Porque ignora-se se há êxito nos caminhos a percorrer. É certo que os chineses, indianos e brasileiros mudaram e melhoraram de vida. Mas o reequilíbrio das sociedades continua a carecer de uma proporção mais respeitosa dos recursos e população. É absurdo escravizar pessoas a trabalhar na produção mecânica de bens desperdiçáveis e inuteis. Para lá da verdade simples de que nenhuma criatura nasce para trabalhar, e sim para viver da prodigalidade da natureza e da criatividade do engenho da espécie, em liberdade, sem escravidão, ainda que no respeito forçoso da população ao meio. Em todo o caso, o perigo maior imediato continua a ser o da guerra nuclear, e muito, muito depois, o do euro e especulação financeira.