sábado, 22 de outubro de 2011

Tão forte como o destino

"O que há em mim é sobretudo cansaço", disse-nos Álvaro de Campos. E a ele regressamos, inevitavelmente. A esse dizer poético que nos transporta mais além, até à região na qual o indizível nos mostra a sua sombra e nos permite uma vaga aproximação. Mas este cansaço meu possui também outros contornos. Há algumas palavras que podem dizê-lo. Na verdade, há sobretudo factos que podem revelá-lo. Vejamos. O cansaço físico que resulta das exigências do trabalho. O cansaço físico, o do corpo que acompanha a percepção de que, hoje, o que de nós se exige nunca é suficiente. Mas é preciso acentuar o que de realmente denso há nessa percepção: o que se exige nunca virá a ser suficiente. Listando: ...e o cansaço da vista de tanto ver, e o cansaço de tanto ouvir; o cansaço das expressões dominantes: déficit, dívida soberana ou orçamento; o cansaço de esperar pelas decisões do Conselho Europeu, ou o cansaço de aguardar pelos "cozinhados" entre os parceiros sociais;  cansaço de saber que há tanta gente entendida, mas que o seu entendimento das coisas se encontra submetido a estratégias de acção com interesses bem definidos, o que rapidamente constatamos sob um olhar mais atento; cansaço do blá blá blá que nos entretém e até marca como diversão o compasso de espera em que sempre nos encontramos... e o quase esgotamento de prever reacções, precisamente porque elas são previsíveis, tal e qual como as minhas... Enfim, acho que fico por aqui em matéria de queixumes arrumados no fim-de-semana.
Restam-me ainda forças para lembrar que quem se queixa é tido como fraco. Como bem sabemos (será?) dos fracos não reza a história. Mas, vasculhando com algum rigor esta questão da força e da fraqueza... a que força nos referimos então? À força do carácter, à força que se alia à grandeza de objectivos, ou tão somente à força da dominação sem escrúpulos, à que tem como único horizonte o poder imediato? Os ditadores também sucumbem e, quase sempre, fazem-no miseravelmente. Assumir fraquezas é sinal de força, digo-o com cansaço. Mas cansa certamente muito mais fingir que nada se passa, já que estamos todos no melhor dos mundos possíveis. É só um caso desagradável, esse de que existe fome no mundo. Pode ser eficazmente eliminado, para não estragar a pintura perfeita do belo quadro - o que representa de forma brilhante a nossa existência imbuída das suas idealizadas circunstâncias: desde sempre existiu fome no mundo; há pessoas cuja sorte é mesmo essa: uma vida esfomeada. Há, portanto, um destino, tudo está bem encadeado neste universo de causas e efeitos. Ridícula essa vã esperança humana de que podemos mudar alguma coisa pela nossa vontade, uma que ouse, supostamente, contrariar o curso dos acontecimentos! Mas acontece ser essa quimera igualmente uma causa que terá os seus efeitos... Ou não? Verdade é que, situando-nos neste prisma, a cadeia de acontecimentos é praticamente infindável...
Assim sendo, não sei porque escrevi tudo isto. Bastava ter dito: "estou cansada porque o ser humano cumpre o seu destino desumano". Melhor ainda, bastava dizer: "quero lá saber! a vida é bela!" - e é. Por isso, devo dizer também, com Ricardo Reis: "Flores que colho, ou deixo/Vosso destino é o mesmo".


4 comentários:

vbm disse...

Um erudito desabafo.
E verdadeiro.

Há esse cansaço do previsível,
a percepção nítida
da inteligência subordinada
a estratégias de interesses,
a repetição de slogans gastos,
a demissão dos políticos
perante a insídia
dos mercados.

E no entanto, o justo
é uma vida em sociedade
congruente com os recursos
naturais, utilizados com
a inteligência e o labor
de todos.

vbm disse...

Ana Paula,

Eu já notei há muito que tu colocas etiquetas nos steus posts de um modo inadequado. Por exemplo, neste post usas

"Apontamentos em tempos de cólera. Poesia. Álvaro de Campos. Ricardo Reis."

Fazendo-o tal e qual apenas formas uma etiqueta única de um único post, ou só daqueles que tenham exactamente aquela descrição"

Para que o post se associe a outros versando "Poesia", "Ávaro de Campos", "Ricardo Reis", "Apontamentos em tempos de cólera", tens de separar estas categorias por vírgulas e não por pontos.

Rui Luís Lima disse...

Ao lermos as primeiras páginas da imprensa até parece que o mundo se encontra à beira do abismo e já nada poderá alterar o estado das coisas, mas se continuarmos a ser donos dos nossos pequenos prazeres, sejam eles a leitura, o cinema ou a escrita, nunca haverá onda diluviana criada pelos senhores do universo, que elimine o nosso prazer de estar vivo.
Cumprimentos. Gostei de descobrir este blogue.
Rui Luís Lima

Mar Arável disse...

O destino está na palma das nossas mãos e talvez por isso
se torne possível torcê-lo

de preferência quando estamos cansados
das flores que medram
a fingir de flores