sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Do outro lado do espelho...?

«Na sua acepção mais corrente, o virtual opõe-se ao real, mas a sua repentina emergência, através das novas tecnologias, dá a impressão de que, acima de tudo, assinala o seu desaparecimento, o fim. Pela minha parte, como já o tenho dito, fazer despontar um mundo real é já produzi-lo e o real nunca foi mais do que uma forma de simulação. Podemos de facto dizer que existe um efeito de real, um efeito de verdade, um efeito de objectividade, mas em si mesmo o real não existe. O virtual não é então mais que uma hipérbole dessa tendência para passar do simbólico ao real - que é o grau zero. (...) A realidade virtual, a que seria perfeitamente homogeneizada, numerada, "operacionalizada", substitui-se à outra porque ela é perfeita, controlável e não contraditória. Assim, porque é mais "acabada", revela-se mais real do que o que estabelecemos como simulacro.(...)»


«Existe hoje um verdadeiro fascínio pelo virtual e por todas as suas tecnologias. Se é realmente uma forma de desaparecimento, isso seria uma escolha - obscura, mas deliberada - da própria espécie: a de se clonarem corpos e bens num outro universo, desaparecer enquanto espécie humana a bem dizer para se perpetuar numa espécie artificial que teria certos atributos mais conseguidos e ainda muito mais operacionais. (...)
Eu penso nessa fábula borgiana do povo que foi ostracizado e colocado do outro lado do espelho, e que já não é mais do que o reflexo do imperador a quem serviu. Seria esse o grande sistema do virtual e tudo o resto não passaria assim de certas espécies de clones, da rejeição e da abjecção. Mas na fábula esses povos começam a submeter-se cada vez menos ao seu dominador e um dia regressam do outro lado do espelho. (...)»



Excertos de: Jean Baudrillard, Palavras de Ordem

Imagem: Alice do Outro Lado do Espelho - pesquisa do Google

6 comentários:

ângela f. marques disse...

Para reflectir... Apesar de admirar Baudrillard, não sei se consigo partilhar de uma visão optimista do virtual...

Obrigada pela partilha.

um beijo

Manuela Freitas disse...

Olá Ana Paula,
Muito interessante esta reflexão! O questionamento destes mundos em que vivemos, real e virtual, é de facto muito pertinente!...Desconfio que a minha vida está a tornar-se muito confusa, sempre a fugir do real para o virtual, procuro contrariar, mas no real estou sempre a pensar no virtual!!!!
Beijinhos e bom fim-de-semana,
Manuela

vbm disse...

:)) Interessante :)

Contudo, mesmo aceitando que o chamado mundo da realidade é já em si um «efeito de realidade», uma conveniência de «objectividade»

- e como o negar, se pela experimentação física criamos inúmeras partículas elementares de indómita energia, tão inimaginavelmente co-possíveis com a nossa existência mesológica, viventes, neste ínfimo planeta num dos milhares de milhões de galáxias do universo!

- é de estarrecer a viagem do infinitésimo ao espaço sem limite! -,

sempre havemos de convir que, na mente, tudo é idealmente operável e até virtualmente possível desde que não haja contradição intrínseca - ou extrínseca! :) -, no processo lógico da construção mental.

Porém, ser possível, - sendo tão só a negação da impossibilidade! :) -, não implica nem se confunde com ser, estar, existir.

Mas, já agora, como «existir» implica de qualquer modo «coexistir», i.e., ser co-possível com seres que apreendam o que existe,

ou dizendo mais metodicamente,

«existir» não implicando de facto coisa nenhuma, será, em si, «existir» simplesmente, «em si e por si»,

o que é o mesmo que dizer

sem «nenhuma realidade» se inapreensível por algum observador, pressuposto «impossível»! :)


Em conclusão,

tens razão, :), o mundo, por muito que exista em si, só é «real» porque é co-possível com quem o intelige e lhe dá um «efeito de realidade»! :))

partilha de silêncios disse...

Uma reflexão muito interessante !!
Embora defenda "o real", até que ponto não poderá ser uma simulação?

Para pensar...

beijinhos

Mar Arável disse...

Na realidade

o virtual objectivo

existe
confunde-se nos espelhos
conforme os olhos

Há.dias.assim disse...

Adorei o texto, tão filosoficamente real e verdadeiro...
Obrigada!