domingo, 9 de maio de 2010

Um

Supondo que tudo o que fazemos, e ainda mais, que toda a nossa acção, na medida em que possui uma intenção, tem efeitos na totalidade do Universo... sendo esta a visão do mundo pela qual procuro orientar-me, concluo não ser possível alhear-me da situação actual. Quero dizer, concretamente, como é da ordem do dia, não ser possível alhear-me da situação económica e financeira do país - em última análise,  há que considerar a do mundo em geral. É certo que a posição de indiferença e de alheamento também teria influência, mas não foi essa a que escolhi. Tenho perdido largo tempo a tentar entender uma série de coisas. Na verdade, continuo sem entender uma enorme quantidade delas. Não sou esclarecida em economia, nem em mercados bolsistas, e outras coisas do género. Mas também é difícil encontrar os devidos esclarecimentos, aqueles que se impõem para uma intervenção consciente dos cidadãos. Por exemplo, não devia ser entregue à sorte o destino de notícias tais como "Portugal tem nota negativa por parte das agências de rating"; "Portugal passou de A+ para A-"; e outras tiradas do mesmo tipo. Obviamente, não seria capaz de explicar devidamente o que tudo isto significa - continuo a fazer esforços para entender, é um desejo de consciencialização. O que sei, e já é alguma coisa, é que a complexidade do nosso mundo "desenvolvido" actual é imensa, sobretudo do ponto de vista económico e financeiro. Acontecem coisas extraordinárias! como bancos que pedem empréstimos a bancos, e que fazem empréstimos a outros bancos que lhes pedem os tais empréstimos, sendo que depois estes os fazem a outros bancos que... (passe a rudimentar explicação); numa vertigem total, dentro da qual não se sabe bem onde está o dinheiro, ou até mesmo se ele existe (?). 
Mas a busca de esclarecimentos também se revela labiríntica. É difícil encontrar visões abrangentes, claras e imparciais q.b. (dado que a total imparcialidade é impossível). Rapidamente entendemos, dando alguma atenção, que um tipo de explicação da situação (a explicação y, por ex.) é de esquerda, e que um outro tipo de explicação da situação (a explicação z, por ex.) é de direita. Mas é também quase de imediato que percebemos que tudo é muito mais tortuoso, porque são muitas as vezes em que a esquerda defende as perspectivas que tínhamos como sendo de direita, e há outras tantas vezes em que o inverso também acontece, sem sombra de dúvida. Fica a incógnita face a uma possível equivalência entre y e z, pelo menos para certos efeitos. Embora a equivalência, a confirmar-se, mostre ser uma daquelas simplificações que só transporta consigo mais obscuridade.
O que fica claro até ofuscar a nossa vista é apenas uma coisa: o esforço necessário para organizar coerentemente tanta e tão desconexa informação é hoje muitíssimo maior. Quase demove o mais perseverante. Ou não. Porque dependerá também do factor curiosidade, o qual trava uma luta acesa com o factor esgotamento. É que isto anda tudo ligado, convém não esquecer. Basta pensar na nuvem de cinzas que nos chega do vulcão na Islândia, uma espécie de eco do que nos segreda a natureza: "tudo é uno".

10 comentários:

Há.dias.assim disse...

Belo, belíssimo!
Obrigada!
Bom domingo!

observatory disse...

tudo ajuda na construçao da nova ordem social.

porque nao me fala de pucaros de barro?

será que ha ainda alguem que os saiba fazer?

sabe quem é cornelius cardew?

vale muito mais que muitos banqueiros.

ontem estive na culturgest a ver e ouvir cardew

disse a um conhecido critico que achava a culturgest um lugar indigno para receber cardew

in fact...

voce perdeu tudo o que ganhou desde a revoluçao francesa

um dia falei
em desobediencia civil e voce ficou zangada

perante a violencia e o oportunismo financeiro
a desobediencia civil é legitima

diga-me :))))))

olhe outra questão importante

a sociedade esta fragmentada por causa do individualismo oferecido pela sociedade dos financeiros:)))

... nespresso... plasma... facebook

sexo virtual :))))

via disse...

a sensação estranha de uma cacofonia constante dá-los a ilusão de uma diversidade indomável, penso que caminhamos, nas sociedades de informação para o contrário para uma repetição de comportamentos, uniformidade não unidade.bom domingo!

vbm disse...

Há uma certa manipulação no modo tendencioso de expor o estado actual do conhecimento e investigação da física.

Por exemplo, repugna-me sempre que se afirme que a matéria se reduz a um esquema de probabilidades quando o ponto é, justamente, a indeterminação física e não a "incerteza" do nosso saber, obviamente derivada da referida indeterminação objectiva.

Por outro lado, afirmar que a consciência colectiva de seres inteligentes que emergem no universo tende a determiná-lo é tão válido quanto afirmar que o universo se determina a si próprio, o que, na verdade, não pode deixar de suceder no devir sequencial de qualquer indeterminação inicial.

Já a questão de um estado de partícula ser observável noutra "partícula-gémea", super-distantes entre si, talvez se deva a que as partículas de matéria não sejam senão como que interrupções de algo que vibra, como por exemplo a vibração de uma barra de timbale, essa vibração sendo ela o universo real e a matéria a interrupção dessa vibração...

Enfim, como não sabemos nada, deliciamo-nos a imaginar! :))

Quanto à economia e o dinheiro... há coisas dos manuais: por exemplo, a moeda, o instrumento auxiliar de troca de bens e serviços, está realmente alicerçado na dívida, nos empréstimos mútuos de uns a outros.

Como a sustentação de tal sistema depende de as pessoas e os países realmente virem a produzir o suficiente para irem pagando as dívidas, se isso ameaça não ser mais possível, gera-se o receio fundado de se perder o que se emprestou, cessa a confiança nos devedores, e gera-se um ciclo contraccionista de actividade.

O que eu encontro de saudável nas crises é um pouco tomar-se consciência da data de bens que não interessam para nada e que realmente não vale a pena produzir para nos enganarmos uns aos outros...

De qualquer modo, a dificuldade é que há gente a mais e as leis de Malthus. - que são leis lógicas: "Não pode haver crescimento ilimitado num meio limitado" -, são sempre actuantes.

Manuela Freitas disse...

Olá Ana Paula,
Aflorei esta questão de forma vaga, mas vim aqui encontrar um texto excelente, brilhante...que diz realmente aquilo que eu não fui capaz de dizer!...
Beijinhos e boa semana,
Manuela

Paulo disse...

Ana Paula, é notável o seu texto e, acredite, muito mais esclarecido do que pode pensar.
É intencional a nuvem que fazem os "esclarecidos" sobre a situação que vivemos: crise, turbulência, apertos... o que sabemos, os que tentamos entender melhor, é que são os causadores do problema que são chamados a resolvê-lo e que para isso impõem as soluções que, antes e sempre, conduziram ao problema. Por isso a nuvem, por isso a falência das soluções, por isso a interrogação.
Bom dia, boa semana e, de novo, parabéns pelo texto.

Austeriana disse...

Venho juntar-me ao grupo dos que apreciaram o seu texto.:)))

A ilação mais imediata a tirar desta hierarquia bizarra é a de que, também aqui, vale a aparência...
É que, de facto, existem países onde as coisas estão bem piores que Portugal. Basta pensarmos, por exemplo, na Grã-Bretanha...
Todavia, no jogo do "rating", surte maior efeito escalonar por baixo os mais fracos, entre eles este nosso canto, mesmo que tal não corresponda à realidade...

Abraço.

anamar disse...

Ana Paula,
este texto belissimo , que taõ simplesmente gostaria de saber escrever, é o sofrimento de muitosssssssssss.... e pessoal.
As dúvidas, as baralhações e o ter apanhado o comboio da crise é uma angústia quase diária...
Gozam concerteza connosco...
Como já vivemos dias mais felizes...
Beijinho
Ana

mdsol disse...

Muito bom! Estou em sintonia. Aliás, ao meu modo, aqui há uns tempos tentei dizer semelhante.
Beijinhos

:))

Eliete disse...

Ana Paula, sua reflexão profunda de uma realidade ,convoca todos nós a tentar entender com nosso mundo e não alienar-se. Quando entendermos , como você tão bem lembrou,os sinais( a nuvem do vulcão da Islandia)da unidade, aí sim viveremos melhor. bjs, Eliete