sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Subida da temperatura - 1

Confesso, conseguiram entreter-me bastante. Estava eu a tentar inteirar-me de coisas sérias, a preparar-me para um bom - leia-se responsável - exercício da minha cidadania... eis senão quando, sou aprisionada no último episódio do folhetim pré-eleitoral. Estou agora deveras preocupada com a questão da garantia das liberdades de expressão (questão efectivamente séria, demasiado séria). E esta preocupação rivaliza, sem dúvida, com a que sinto face ao aumento do desemprego, perante as incógnitas que esboçam o futuro das minhas filhas, quanto à sua segurança, saúde e educação, só para citar alguns tópicos incontornáveis... Acreditando que temos liberdade, tal como julgo elas terão, para nos manifestarmos e agirmos positivamente em relação a tudo isso.
Certamente, a questão da liberdade de expressão e de informação não é um problema menor. Ao contrário, é uma verdadeira questão prévia. Dito de outro modo, é o único pano de fundo admissível para todos os possíveis contornos de debate. Trata-se de um pressuposto indispensável em democracia. Daí que lamente, enquanto estou entretida (até me entediar), o facto de o tema não ter um tratamento à altura, com toda a seriedade que ele exige, no tempo próprio e adequado. Inversamente, ele é arma de arremesso, não se sabe bem de que lado para que lado... O estilo actual é mesmo este: não exaustivo, não rigoroso, não conclusivo. Mas não há equívoco quanto ao facto de a política ser, hoje, e cada vez mais, um verdadeiro manto diáfano da fantasia sobre a nudez forte da verdade, parafraseando Eça.
Ao assunto voltarei, suponho, num outro instante qualquer de clima ao rubro. Obviamente, como "filha" do meu tempo, e quanto às minhas modestas ideias, não serei exaustiva, nem rigorosa, nem conclusiva.



Imagem DAQUI

7 comentários:

C. disse...

Este silenciamento (e todos os outros), a perda da privacidade sob o estandarte da absoluta "transparência"; culto de uma imagem plasticamente perfeita (para adiar a morte, como se fosse possível!!!), e outras tantas tiranias...
Sabe, Ana Paula, acho que o mundo está mesmo feio. E não sou nada catastrofista.
Como diz a Hannah Arendt: "A verdade, posto que impotente e sempre perdedora em choque frontal com o poder, possui uma força que lhe é própria: o que quer que possam idealizar aqueles que detêm o poder, eles são incapazes de descobrir ou excogitar um substituto viável para ela. A persuasão e a violência podem destruir a verdade, não substituí-la."
Post bem oportuno.

Beijinho

daniel disse...

A liberdade de expressão parece não ser plena neste Portugal que somente conhece 35 anos de democracia comparado com o quase meio-século de ditadura. Um certo espírito de saudosismo e inércia (característica deste brando povo)invade-o, devora-o... ou como dizia um nosso grande poeta António Lopes Vieira, Portugal é um "país castrado". Uma expressão curiosa que dá que pensar.

Quanto ao futuro, as palavras de Orwell continuam a ecoar por entre as colinas devastadas da história:

"Se queres um imagem do futuro, imagina uma bota esmagando uma face humana, vezes e vezes sem conta, para sempre"

É uma profecia tenebrosa, mas real!

(estou sempre eintusiasmado para ler novos posts neste blog...)

=)

poematar disse...

Os políticos quando lhes convém andam sempre a falar de liberdade disto e daquilo. O que agora acontece não passa de cínico jogo eleitoral e afirmações de poder, tendo em conta quem ganhe a seguir, marcando posições através de pressões, sobretudo do mundo dos negócios em conluio com políticos corruptos, sem escrúpulos, gananciosos e ávidos de poder e desepero de o perder, perdendo influências. Que sejam "reeducados", fechados numa sala vendo consecutivamento SALO de Pasolini. Desculpa este laconismo simplista e algo desesperado, mas... Tudo de bom. O ano, escolar está a começar duro.

Maria Josefa Paias disse...

Serenidade, serenidade, serenidade, Ana Paula! Lembro-me daquele nosso Primeiro-Ministro (Pinheiro de Azevedo) que ficou sequestrado no Parlamento, e que disse: "O povo é sereno, isto é só fumaça...", porque alguém tinha feito rebentar um petardo na altura em que ele foi libertado daquela situação. As "fumaças" agora são outras e é necessário manter alguma serenidade para conseguirmos descodificar as mensagens, caso contrário instala-se a ansiedade e os ansiolíticos.
Um grande abraço.

vbm disse...

Eu confesso que não entendo até onde pode ir ou não o proprietário de um jornal. A lei estipula que a Direcção de Informação é a responsável pela linha editorial e o conteúdo informativo; o proprietário não responde por isso nem é demandado em Tribunal em caso de queixa.

Porém, quem manda num jornal é o patrão, e não vejo o que possa a lei estipular que proíba demitir uma Direcção de Informação. Ora, neste caso, a Direcção de informação da TVI, presumo, era a do J.E.Moniz que já tinha rescindido a saída. A jornalista das sextas-feiras diz que ficou surpreendida por lhe terem proibido a emissão.

Ora, que eu me aperceba, o conteúdo noticioso da edição de sexta-feira foi integralmente transmitido, não houve qualquer censura. A única coisa que foi impedida foi a jornalista continuar com aquele programa noticioso que - especulo eu -, deve ter sido combinado explicita ou implicitamente que não continuaria a ir para o ar por incompatível com a nova Direcção da Emissora. Logo, não houve censura nenhuma mas simplesmente mudança de Direcção que é um direito que o proprietário tem.

Não vejo como é que a lei possa impedir este direito dos accionistas. Se a Entidade Reguladora da Comunicação entender que há falta de pluralismo naquela televisão ou noutra qualquer que cancele a licença respectiva de emissão porque tem o poder constitucional de o fazer.

Não pode é censurar-se ignobilmente o partido socialista de ser quem perpetrou aquela medida porque o seu secretário-geral não só o nega liminarmente como já provou ser neste ponto verdadeiro até porque, anteriormente, usou o seu poder de governante para impedir que a Portugal Telecom comprasse acções daquela emissora porque a oposição começou a bradar que o que se pretendia era acabar com aquele telejornal e justamente para matar a calúnia pela raíz, o primeiro ministro vetou a operação. Ora, já em relação à Prisa, nenhuma golden share o govrno detinha que pudesse fazer o mesmo.

A liberdade de imprensa passa realmente por permitir que se fale de todos os assuntos e a TVI vinha legitimamente divulgando as investigações a que procedeu no caso Freeport e isso era e é louvável; assim prossigam. Já o modo como a jornalista agora destituída entrevistava as pessoas, escarnecendo de acção governativa em cada questão colocada e em cada declaração nada tinha a ver com a deontologia da profissão que exercia com a maior das incompetências.

Por mim, estou satisfeito com a erradicação da jornalista; já a divulgação do que se descubra do caso Freeport que continue porque o Ministério Público tem agido de com uma negligência inadmissível na investigação da verdade e se não fosse a acção da imprensa - e da TVI - tudo continuaria encoberto sob o vasto manto da ignorância e do segredo da injustiça.

RAA disse...

A liberdade de imprensa e, por consequência, o de expressão, está no cerne das sociedades livres e democráticas. É um assunto demasiado sério, como muito bem diz. Por isso mesmo insusceptível de ser tratado a propósito deste episódio que envolve uma figura sem credibilidade nem espessura, uma espécie de Mónica Cintra dos telejornais...

ARTISTA MALDITO disse...

Olá, Ana Paula

Como não vejo televisão não posso comentar, apesar de ter ouvido falar de um problema ligado à tvi. Suponho que se trate de aproveitamento político e uma questão de politiquices, permita-me a expressão.

Sabendo, porém, que está envolvida uma figura caricata do jornalismo, concordo com o que RAA diz: definitivamente sem espessura.

Beijinhos e um bom início de semana
Isabel

p.s. vou estar ausente uns dias, mas volto:))