segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Triagem - 1


É sabido que a vida tem fases e que a cada uma delas corresponde um determinado conjunto de características que a marcam. Já há algum tempo que tenho procurado definir a minha fase actual. Tarefa não fácil, procurar ver para lá da dimensão do eu, carregado de subjectividades, artifícios, auto-justificações, e etc e tal...

O minimalismo sempre me foi difícil. No entanto, admiro essa atmosfera (interior ou exterior) de inspiração. Acho que nunca conseguirei imbuir-me verdadeiramente desse espírito. Interesso-me por demasiados assuntos. E, por mais que ambicione a simplicidade, é a complexidade do todo e de tudo que me persegue.
Talvez pelo passar do tempo... à medida que nos apercebemos do quanto é precioso, talvez por isso surja a necessidade de fazer uma triagem interior. Sobretudo interior, porque são os aspectos volitivos que comandam em grande medida a vida (não por inteiro, pois isso seria a pura liberdade na sua versão mais simplista).

Talvez este comando interior para seleccionar se prenda com o caos circundante. Com a sensação de que nunca será possível compreendê-lo por inteiro. É complicado evitar que o exterior tenha um profundo reflexo no interior de cada um.
Sempre me fascinaram as imagens de barcos à deriva no meio de grandes tempestades. Mas, sobretudo, quando se torna evidente que lutam por manter o rumo.

Está visto que a minha triagem não põe de lado inquietações do tipo filosófico-existenciais!


13 comentários:

contracena disse...

Hum..., este teu texto tem muito que se lhe diga!

"grandes tempestades" - uma gota no oceano!

Um beijo, Paula.

poemar-te disse...

Olá Ana. A simplicidade não se opõe à complexidade, na minha opinião. Ela é uma busca profunda de auto-reflexão e de olhar o outro e o mundo de um modo que só poucos sabem. Por isso há aqueles que são, digamos, "pessoas simples" quase de nascença; é-lhes intrínseco. A simplicidade é o despojamento do acessório e tal não é nada fácil, principalmente, hoje. Se fossemos minimalistas ou, melhor, tranquilos e mais despojados daquilo a que se chama cultura(?), diriamos que o essencial à vida é comer bem, dormir bem, caminhar, mexer-se fisicamente e amar, ou melhor tactear a pele e ver o olhar, saber conversar e ouvir o outro. Mas quem é que é capaz de não se "interessar por diversos assuntos"?. Será isso inquietação? Não será ansiedade emocional. Eu também me interesso por muita coisa, porém actualemnte e, desde há uns anos comecei a ver que tanta ânsia era nada ou quase. Os meus textos dão conta dessa preocupação e agora estou numa encruzilhada; não sei que caminho tomar, uma vez que me aculturei demasiado e a vida ensinou-me o contrário. A amizade é o maior dos assuntos e vivê-la e ser amigo? Bom é mehor parar. Este devaneio directo online deve estar cheio de imprecisões e já me alonguei. Os teus cometários chegaram ao poemar-te. sabes?, Gostas mesmo de teres os teus pontinhos a vaguear pelo teu blogue? A mim dispersam-me. Não deixam de lhe incutir um certo psicadelismo como os Floyd dos bons tempos como em Arnold Layne. Desculpa. Tudo de bom.

Ana Paula disse...

Contracena: são só inquietações... da gota no oceano que sou... mesmo!

Um beijinho :):)

Poemar-te: sem dúvida! Talvez o mais complexo de tudo seja precisamente chegar à simplicidade. Aqueles que são detentores dela logo que nascem, julgo-os afortunados. Vivem de modo inabalável o mais essencial. Quem possa rodear-se de uma segunda natureza também é afortunado, mas ao criar outras necessidades, corre o risco de deixar escapar o "sumo" da existência.

Agradeço a atenção e compreensão destas minhas pequenas (ou grandes) inquietações :)

Escutar o outro/os é prioritário, ainda que muitas vezes isso seja esquecido. Por isso, eu compreendo a nota sobre esta minha nevezinha :) Já pensei retirar, pós-Natal, mas como tem feito tanto frio...! fui deixando ficar. No entanto, está programada até dia 31 de Janeiro, pelo que em breve desaparecerá. Com ou sem frio!

Frioleiras disse...

eu , que tanto gosto do Roy Liechtenstein como do Mantegna... também me debato com esses mesmo dilema...

Dizes: "Talvez este comando interior para seleccionar se prenda com o caos circundante" e é capaz de ter a ver com a necessidade cada vez mais premente em nós do "less is more"...

Mas é tão difícil...

E existe, há uma enorme necessidade de descanso, físico e mental e estou certa de que seria capaz de viver no "less is more".

Para isso teria de ter coragem de
deitar fora
tudo o mais.

Acredito que parte das nossas angústias existenciais também fossem para o lixo porque são os adjectivos , os adjectivos a mais portanto, que nos agudizam as mágoas, a complexidade, e conduzem cada vez mais cedo ... à senilidade também!

audrey disse...

os excessos tapam-nos a vista.
Não nos deixam ver a beleza limpa da natureza e a paz só vem do branco, do limpo do menos.

tolilo disse...

eu simplesmente 'enfio-me' numa só cor:
o rosa !

A vida, assim, 'fabula' ser mais fácil

Arion disse...

Sem te entender, entendo-te na inquietude, creio. Carpe diem! Beijo grande!

Artista Maldito disse...

Olá Ana Paula

Não poderia deixar de vir ler esta sua inquietação. Talvez seja a única que nunca me assaltou o espírito. Nunca fui minimalista, talvez por ser uma neo-barroca incurável, além de romântica. Sempre retive os detalhes, sou uma ornamentalista, uma esfomeada de cor, de elipses, cornucópias. Talvez nesta nossa cultura haja uma tensão entre dois extremos, um de raíz latina e outro influenciado pela cultura urbana americana, mais despojada e mais concentrada na ideia/mensagem do que na forma/conteúdo.

Uma forma de se estar, sem dúvida.

Beijinho
Isabel

partilha de silêncios disse...

Somos seres complexos. A solução está em reduzir as preocupações e enriquecer a nossa vida simplificando-a.Já dizia Óscar Wilde “ Adoro as coisas simples. Elas são o último refúgio de um espírito complexo”. Há fases na nossa vida em que paramos um pouco para "pensar", outras um pouco mais, tudo faz parte do nosso percurso. O que podemos fazer com a vida, é o mesmo que fazemos com a água, colocar as mãos em concha e criar espaço para que permaneça.
um beijo

via disse...

sempre que procuramos entender os processos e as formas ela são mesmo volitivas e não se deixam captar. manter o rumo, é isso, às vezes nem é preciso segurar no leme!Bjo

poemar-te disse...

Palavras certeiras e interessantes as da Isabel do Artista Maldito.

mié disse...

Olá Ana Paula.


Pois, este teu texto e reflexão tem muito que se lhe diga.

O caos circundante...esse estado de coisas que nos tiram a liberdade de ser e nunca o compreendemos por inteiro.

Testemunho :)
Depois de muitos anos de caos circundante, de buscas e re.buscagens em livros, sítios..., de abrir portas com sentido proibido para dar respostas ás minhas inquietações e interrogações existenciais, que eram as de toda a gente penso eu, depois de ter "morrido" uma vez porque "o barco à deriva quase se afundou na tempestade mais forte que eu" aprendi (aprendizagem longa por vezes dolorosa até) a desaprender e a despegar-me de tudo o que não me faz falta , embora seja uma missão quase impossível vivendo eu em sociedade, sujeita ao "profundo reflexo da sociedade em mim", e a prova está aqui, eu estar aqui. Continuo a ser um ser complexo, embora menos, muito menos :).

A idade e com ela a experiência e a vivência, a certeza de que já nada se tem a perder apenas a ganhar, é um factor importante para esse regresso à simplicidade.

Um beijo

enorme.

mié disse...

Li o comentário da/o poemar-te e achei interessante esta frase

"A simplicidade não se opõe à complexidade, na minha opinião. Ela é uma busca profunda de auto-reflexão e de olhar o outro e o mundo de um modo que só poucos sabem."

A simplicidade e a complexidade não se opõem, mas apenas quando há uma condição: O conhecimento de um e de outro.
Mas um é a antítese do outro.

A simplicidade consciente e voluntária, é um exercício de rigor e persistência. Do complexo para o simples. Como numa equação matemática, em que se vão eliminando diferentes patamares da equação até a tornar no maior resultado simplificado.
Esse resultado é atingido se se conhecer o todo, o complexo, o que é subtraível.
Muitas vezes a auto-reflexão não é suficiente para despertarmos esse conhecimento.

E


gostei Ana paula :)