terça-feira, 1 de abril de 2008

Slavoj Zizek - 2



Transcrição de um comentário (meu) em relação ao texto anterior sobre Slavoj Zizek

"Agradeço a todos o interesse e a atenção dispensada à minha curta alusão a Slavoj Zizek.

Na verdade, gostaria de expressar resumidamente a minha posição face ao autor, sem qualquer pretensão de esgotar o tema. E em resposta à e-ko que deixou ficar uma interrogação no "ar", o que muito me agrada sempre.

A meu ver, o mérito de Zizek consiste em "cozinhar" um ponto de vista que nos perturba, quanto mais não seja porque nos exige a clarificação de certas ideias que defende e que nem sempre nos parecem acertadas, em especial por uma certa incongruência nas análises que faz.
A sua perspectiva filosófica está plenamente imbuída da óptica psicanalítica, em particular da de Lacan. Parece-me que o único sustentáculo da sua filosofia consiste numa reinterpretação lacaniana da realidade, adaptada às sociedades actuais. Se este edifício lacaniano desaparecesse, a construção de Zizek desabava. Isto, sem menosprezar o interesse que Lacan encerra, não nos deixa algo de Zizek verdadeiramente original e inovador.

Por outro lado, trata-se de um autor com predilecção por afirmações bombásticas, o que pode desagradar, porque o provocador, só por si, não favorece por aí além o progresso.

Pontos que nele obtêm a minha adesão:
- é um cinéfilo inveterado, o que me parece uma óptima qualidade;
- pensa o nosso tempo, por ex., a questão da hiperrealidade, excelentemente abordada por Baudrillard, é um tema que dará que pensar no futuro, quanto a mim... e é tema de reflexão para Zizek;
- a forma como tenta chegar ao grande público, o que me parece sobejamente importante.

O que menos aprecio nele:
- a falta de sistematicidade, exigência de qualquer trabalho sério e consequente, em todas as áreas, e na filosofia também. No entanto, muitos foram aqueles que com pensamentos algo caóticos e desorganizados contribuiram para grandes e geniais descobertas, invenções frutíferas e renovação do mundo e das sociedades.

Finalmente, quanto ao facto de ser ou não inovador... é certo que são urgentes ideias novas, mas... como será possível a qualquer um de nós, hoje, pensar mediante a abstracção de todo o passado da humanidade, que é já longo, para acrescentar algo verdadeiramente inovador?! Essa tarefa, agora, é cada vez mais difícil... Deve ser por isso que, em todas as áreas, aquilo a que se assiste é a uma recuperação do passado, desde o campo da filosofia, até ao da moda, etc por aí fora... Porque é, talvez, cada vez mais difícil cortar com toda a tradição e com todo o desenrolar da história, uma vez que ela é imensa. É como querer construir uma cidade nova, a partir de uma já existente.

Apesar da dificuldade em criar algo que seja verdadeiramente inovador, julgo que, ainda assim, algo de novo vai surgindo, mas tudo acontece com pequenos avanços, os quais, por vezes, só se dão ultrapassando muitos retrocessos e períodos de estagnação.

Já me alonguei demais, mas deve-se à consideração que tenho pelas objecções colocadas pelos que aqui passam, aos quais mais uma vez agradeço a oportunidade que me deram de com eles pensar!
Obviamente, todas as minhas afirmações são discutíveis.

Nem com Zizek, nem sem ele, talvez através dele..."


2 comentários:

alice disse...

e eu agradeço teres aprofundado um tema que apesar de me ser distante gostei muito de ler, ana paula. um grande beijinho.

e-ko disse...

já tinha lido o comentário no post anterior. sim, através de Zizek e de todos os outros que pensem sobre estes temas.

obrigada, por pensares com os que aqui passam.