terça-feira, 13 de novembro de 2012

a vida é trágica



ser rã é filosófico


eu, que "ando de leituras com os russos", descobri agora este conto, uma pérola da chamada 'prosa pequena'. registo aqui uma amostra:


Eu, apesar de adulto, sou muito pequenino, logo, rãzinha. (...) chamam-me azul porque, como os meus irmãos, me torno azul-claro na Primavera; (...).
Não sou mais do que as outras rãs: apesar de tudo, sou diferente, pois as circunstâncias da minha vida são muito particulares. Estou-me nas tintas para as beldades do pântano, porque continuo a amar Alice; todavia, nada posso contra a Natureza, que leva sempre a melhor; (...).
Entretanto, a minha pequenez oprimia-me muito menos do que poderá pensar-se: dela me esqueci mal me habituei às novas correlações entre corpos e objectos. Depois de assimilar as novas regras do jogo, deixei de aborrecer-me, até porque havia numerosos seres mais pequenos do que eu. Esta vida microscópica, embora rica e enérgica, estimulava-me e acalmava-me. (...)
Sempre admirei a estrofe: "As águas correm pelos abismos do martírio, os bosques crescem nos abismos do mistério". Só que o meu martírio era muito mais doloroso do que o do poeta, que se limitou a referir o extermínio mútuo dos seres vivos em prol da sobrevivência. (...) Estou a falar do ranger das árvores e dos suspiros das ervas. Quando me tornei rã, reparei como as árvores se modificam com a aproximação da noite. Por exemplo, dois vidoeiros, um ao lado do outro, da mesma idade, a mesma casca sã e rija, sem fungos, e a medula igualmente sã e copas frondosas... Parecem réplicas exactas um do outro! Quando cai a noite, porém, um dorme em paz, enquanto o outro range dolorosamente, embora não haja vento. Este ranger é como um gemido, um ai angustiado, um choro sem lágrimas.
A Natureza, como os seres humanos, utiliza mais do que uma língua. (...)
Iuri Markavitch Naguibine, Conto de uma rãzinha azul  

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

fome, pobreza e Cia.

até já estou com pena da Dra. Isabel Jonet. pena pelo massacre que lhe têm feito. e eu não gosto de massacres. trata-se afinal, para mim, de algo relativamente simples: eu não concordo com as declarações que fez. aliás, estou num pólo diametralmente oposto. e assim como a Dra. Isabel Jonet tem o direito de dizer o que diz e de dar essa orientação à instituição pela qual é responsável, eu também tenho o direito de não concordar com ela e de não gostar do seu estilo de caridade. ao qual a minha reacção é forte posto que me é visceralmente desagradável  - as pessoas são seres integrais, com emoções e sensações que também as orientam adequadamente nas suas escolhas e decisões. como tal, sinto-me livre para não colaborar com o BA. de resto, já antes outras coisas me tinham desagradado nesta instituição. acresce que há muitas outras do tipo, de preferência várias de solidariedade social, com as quais poderei colaborar. mas o assunto, para mim, fica por aqui. longa vida ao BA, sobretudo se conseguir matar a fome a alguém (de preferência, a muitos). numa sociedade livre, as pessoas escolhem, e a minha escolha está feita, por agora. era o que mais faltava sermos obrigados para todo o sempre a um compromisso de colaboração com o BA, apenas em virtude de currículos, ou de provas dadas no passado. eu estou agora preocupada com o presente e com o futuro. e, como sabemos, todo o mundo é composto de mudança - para melhor e para pior. o passado conta como referência, mas não como amarra incondicional.
de tudo isto retiro, em especial, uma questão que me interessa: pode uma instituição ser absolutamente independente daqueles que a corporizam? mas isso é uma outra matéria, a qual merece redobrada atenção. a retomar um destes dias...

coisas de outros tempos. ou não.

Uma criada dá sempre a direita aos senhores excepto no «passeio», em que lhes compete sempre o lado de fora.
Se sai do automóvel segue a mesma regra e, portanto, abre a porta do lado direito para a senhora entrar e depois dirige-se para a porta do lado esquerdo. Se vão três pessoas o lugar inferior é o do meio.
Ao subir uma escada, se esta tem corrimão, deve deixar esse lado para os senhores.
A criada bem-educada sempre que a sua senhora passe por ela desvia-se respeitosamente dando-lhe a direita, nunca deixando que a senhora passe por detrás dela.
Quando fala com os seus senhores deve ter o cuidado de não empregar termos grosseiros, não falar de costas ou sentada. Lembre-se que está a falar a superiores e que a delicadeza nunca é demais. 
Deve falar sempre em voz baixa e submissa, nunca interrompendo os seus senhores.
«Instrução Profissional: Aprender para saber. As criadas perante os seus senhores.» in Inês Brasão, O Tempo Das Criadas

domingo, 4 de novembro de 2012

hipótese existencial - toda a vida é arte posto que é ilusão

El Bosco (?), O Prestidigitador (cerca de 1502) 


a expressão tola do ilusionado leva a crer que é essa capacidade de nos deixarmos iludir a que permite uma vida com sentido. procure-se o que está por detrás de... e é o mais radical absurdo o que fica à vista. o absurdo é, por hipótese, o meio onde estamos mergulhados, e que nos recusamos a habitar. o mundo pode ser assim nosso, pois não há quem não seja uma ou outra vez tolo. e com tolices-ilusões se tece a lenta mas também longa teia do mundo. quanto mais rendilhados, mais se respira o mágico que há em nós: o que ilude e o que é iludido.

do Inferno de Strindberg

disse Deus:

Faça-se o movimento, pois o descanso corrompeu-nos! Além disso, quero arriscar-me a uma manifestação, enfrentando embora o contratempo grave de me dispersar e perder na massa bruta!
Vede além, entre Marte e Vénus, como permanecem devolutos alguns miriâmetros do meu domínio.Quero criar ali um novo mundo que sairá do Nada e um dia regressará ao Nada.
As criaturas que nele viverem hão-de julgar-se deuses como nós, e prazer experimentaremos a observar-lhes os combates e as vaidades. Que o seu nome seja mundo da loucura! Qual o teu parecer, irmão Lúcifer que partilhas comigo todos os reinos ao sul da Via Láctea? 

respondeu Lúcifer:

Senhor, irmão, o teu desejo malévolo implica sofrimentos e desgraças. Abomino tal ideia!

August Strindberg, Inferno 

[como saber quem é Deus e quem é Lúcifer?!]

Tolstói



de um conto do período de maturidade:

Efectivamente, se Evguéni Irténev era doente mental no momento do crime, então todas as pessoas são doentes mentais, e, entre esses dementes, os mais enfermos são sem dúvida os que vêem os sinais de loucura nos outros e não reparam em si próprios.
Tolstói, O Diabo (e outros contos)

sábado, 3 de novembro de 2012

a gravidade de sempre

interessa-me a gravidade em todos os sentidos. e uma coisa é certa: a cada um a assumpção da sua gravidade. não são os outros que hão-de carregar connosco.





Regresso ao futuro

Muitas vezes, diz-se: nunca regresses a um lugar onde já foste feliz. Mas como não procurar todos os lugares que nos parecem compatíveis com...