«Ele tem dois antagonistas; o primeiro empurra-o por detrás, a partir da sua origem. O segundo bloqueia a estrada à sua frente. Ele trava batalha com ambos. Na realidade, o primeiro apoia-o na sua luta com o segundo, porque quer empurrá-lo para a frente, e do mesmo modo o segundo apoia-o na sua luta contra o primeiro, dado que o empurra para trás. Mas só teoricamente é que é assim. Porque não são só os dois antagonistas que estão lá, mas também ele próprio, e quem sabe realmente quais são as suas intenções? O seu sonho, todavia, é que porventura num momento de distracção - e isto, devemos admiti-lo, exigiria uma noite mais negra do que qualquer noite que já tenha havido - ele saltará para fora da linha de batalha e será promovido, em consequência da sua experiência de luta, à posição de império sobre os seus antagonistas na sua luta de um contra o outro.»
Franz Kafka in Hannah Arendt, A Vida do Espírito I - Pensar
De acordo com a interpretação de Hannah Arendt, esta parábola de Kafka (parte de uma colecção de aforismos intitulada «ELE») descreve a sensação de tempo do eu pensante, e cito: "(...) Ela analisa poeticamente o nosso «estado interior» em relação ao tempo (...)".
Simplificando muito a interessante questão colocada, o ELE (o eu pensante) é aquele que escapa ao fluxo contínuo do tempo. Enclausurado entre passado e futuro, cabe-lhe a ele introduzir neste continuum uma espécie de ruptura, um Agora. Enquanto eu pensante, ELE consegue visualizar-se (e consciencializar-se) como presente, confrontado com o passado e com o futuro.
Na minha interpretação, Hannah Arendt faz, desta forma tão rica e tão bela, o elogio do pensar. Ainda que, no desenvolvimento das suas ideias, o pensar não deva ser "um escapar" ao espaço-tempo, mas, em última análise, uma inserção no tempo e no espaço pelo agir (e não será pensar uma forma de agir?). Assim se faz o presente, pelo qual temos a possibilidade de participar na construção do mundo. Sabendo que a nossa acção será imediatamente absorvida e incorporada na temporalidade: dando a mão ao passado (atrás de nós, segundo a metáfora espacial), e estendendo a mão ao futuro (o que se aproxima de nós pela frente, de acordo com a mesma metáfora), situados neste presente absolutamente efémero (aqui, no meio dos outros dois pontos de orientação - instantaneamente transformado em passado, e deixando de ser o futuro que permanentemente vem ter connosco).
Sem dúvida, uma cativante forma de perspectivar a nossa responsabilidade.
Imagem: pesquisa do Google
Simplificando muito a interessante questão colocada, o ELE (o eu pensante) é aquele que escapa ao fluxo contínuo do tempo. Enclausurado entre passado e futuro, cabe-lhe a ele introduzir neste continuum uma espécie de ruptura, um Agora. Enquanto eu pensante, ELE consegue visualizar-se (e consciencializar-se) como presente, confrontado com o passado e com o futuro.
Na minha interpretação, Hannah Arendt faz, desta forma tão rica e tão bela, o elogio do pensar. Ainda que, no desenvolvimento das suas ideias, o pensar não deva ser "um escapar" ao espaço-tempo, mas, em última análise, uma inserção no tempo e no espaço pelo agir (e não será pensar uma forma de agir?). Assim se faz o presente, pelo qual temos a possibilidade de participar na construção do mundo. Sabendo que a nossa acção será imediatamente absorvida e incorporada na temporalidade: dando a mão ao passado (atrás de nós, segundo a metáfora espacial), e estendendo a mão ao futuro (o que se aproxima de nós pela frente, de acordo com a mesma metáfora), situados neste presente absolutamente efémero (aqui, no meio dos outros dois pontos de orientação - instantaneamente transformado em passado, e deixando de ser o futuro que permanentemente vem ter connosco).
Sem dúvida, uma cativante forma de perspectivar a nossa responsabilidade.
Imagem: pesquisa do Google
