quinta-feira, 12 de novembro de 2009

sábado, 7 de novembro de 2009

O laço branco


O laço branco - Michael Haneke





De 5 a 14 de Novembro: Estoril Film Festival


[Agora que vi o filme, posso dizer que é de uma beleza e perfeição esmagadoras (assim o senti perante as imagens de uma luz branca resplandecente que parecia engolir-me e transportar-me para aquela estranha aldeia, laboratório de análise da humanidade). O efeito especial a destacar aqui, é o de todo o filme: um efeito especial inesquecível.
Questões: muitas. Fiquei a pensar (impossível não o fazer): infância, educação, crenças absolutas, repressão desumana - perversão. Como e onde se ligam entre si? Terá o laço branco um reverso tão negro como o ar da noite mais cerrada? Voltarei a tudo isto, certamente.]


terça-feira, 3 de novembro de 2009

Invisível

«Pousa a caneta, coça a cabeça, exala. Inopinadamente, um versículo esquecido do Eclesiastes emerge clamoroso na sua consciência. E eu dei o meu coração para conhecer a sabedoria, e para conhecer a loucura e os desvarios... Enquanto rabisca as palavras na margem direita do seu poema, pergunta-se se esta não será a mais verdadeira de todas as coisas que escreveu acerca de si mesmo em muitos meses. As palavras podem não ser suas, mas ele sente que elas lhe pertencem.»
in Invisível, Paul Auster





Até que ponto somos invisíveis para nós mesmos?

Invisível: este é o segundo livro mais inquietante que li de Paul Auster. O outro foi Leviathan. Quem gosta do autor (como eu), não pode perder esta que é a mais recente etapa da sua produção literária. Quem não gosta, pode passar a gostar (?).
A narrativa é visceral - o pensamento quase se pode tocar, as personagens (especialmente Adam Walker) existem como corpos que pensam. Quase - porque há a difusa presença de um inatingível.
Confirmo: Paul Auster é um dos meus escritores preferidos.

Para toda a informação sobre o livro e o autor entrar aqui








Imagem: La reproduction interdite, René Magritte - 1937

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Estranhos de passagem

Foi aqui que escolhi uma citação de Kierkegaard para fazer uma auto-descrição. Não foi por acaso. Na verdade, o que citei encerra uma espécie de dúvida ou de conflito que se me apresenta no último instante, em diversas situações, interrompendo esse movimento imediato com o qual mergulhamos na existência. Em si mesmo, isto não é positivo, nem negativo. É. Na verdade, trata-se de uma espécie de duelo entre a fé (no seu sentido mais lato) e a razão, onde, no último instante, prevalece a última.
O movimento da fé assemelha-se, na entrega a Deus, ao movimento do amor, na entrega ao amado(a). Em ambas as situações, com as inevitáveis diferenças, domina o incognoscível e há um salto absurdo no desconhecido. O outro é, para nós, no seu sentido mais radical, um estranho. O movimento da fé, tal como o do amor incondicional, implica riscos e exige resignação. Quanto à razão, parece ser um empecilho, do qual não consigo desejar livrar-me. No último instante... é a representação de um salto no vazio, aquilo que inspira temor.

Em Temor e Tremor, Kierkegaard expõe a natureza do conflito e da dúvida que se instala na vivência da fé. É neste contexto que é relembrado o episódio bíblico de Abraão, o qual, para obedecer a Deus, deve sacrificar o seu filho, Isaac. O que Kierkegaard pretende pensar e mostrar (ainda que a fé seja um paradoxo, e do domínio do inexplicável) é que Abraão sacrifica o seu filho porque só assim acredita poder recuperá-lo. Crê que só pela sua completa entrega, no momento de confronto com o absoluto, é possível transcender a sua finitude e, paradoxalmente, possuir aquilo de que abdicou. Abraão resigna-se.
É esta resignação aquilo que constitui o movimento da fé - um salto no desconhecido pela entrega absoluta. Um amor incondicional, inscrito no âmago da vida, colado à sua vivência imediata. Ou se vive assim, ou não se vive. A reflexão não pode ter aqui lugar, porque a fé está para lá da razão. E o amor, não?

Confira-se:
«É agora meu propósito extrair da sua história, sob forma problemática, a dialéctica que comporta para ver que inaudito paradoxo é a fé, paradoxo capaz de fazer de um crime um acto santo e agradável a Deus, paradoxo que devolve a Abraão o seu filho, paradoxo que não pode reduzir-se a nenhum raciocínio, porque a fé começa precisamente onde acaba a razão.»
in Sören Kierkegaard, Temor e Tremor


Imagem: Os Amantes, René Magritte

domingo, 25 de outubro de 2009

Dois prémios e um abraço

Tenho a agradecer a simpatia e a gentileza do Vermelho Côr de Alface - blogue do Miguel (T. Mike), assim como do Restolhando - blogue da Maria Josefa Paias, por este prémio que torna o Catharsis "just perfect". É uma honra imaginar que possa ser mesmo assim para os seus autores, sempre tão especialmente atentos ao mundo que nos rodeia. Ou ainda assim: "your blog is just perfect to learn something every day". Sinceramente, muito obrigada a ambos!



Atribuo agora o mesmo prémio aos seguintes blogues:










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Este simpático e acolhedor abraço foi-me oferecido pela Teresa do BlogCrónicasdaTeresa, um lugar que se caracteriza por uma atenta intervenção da sua autora, face a tantos dos problemas que acompanham o nosso mundo actual. Muito obrigada, Teresa! Um abraço assim (tão caloroso), apetece receber, retribuir e partilhar. Portanto, além de o retribuir, dou-o também a todos os que me acompanham por aqui...





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Este prémio (que convida à reflexão...) foi muito gentilmente atribuído pela C. do Marcas d'Água: trata-se de um espaço onde a excelente diversidade dos temas é acompanhada pelas estimulantes análises dos seus autores. O meu muito obrigada à querida C.!





[Como já tinha feito nomeações anteriormente...
partilho agora este selo com todos os seguidores do Catharsis.]



quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Anti-tertúlia

«Vendo a mulher que o fruto da árvore devia ser bom para comer, pois era de atraente aspecto, e precioso para esclarecer a inteligência, agarrou do fruto, comeu, deu dele a seu marido, que estava junto dela, e ele também comeu.» - Genesis

José Saramago afirmou que escrever o seu último livro foi um acto de liberdade. Excelente! Toda a boa literatura deve sê-lo, pois nada deverá amarrar uma mão com desejo de escrever. Nem a nossa outra mão.

Por outro lado, fico com pena de não ter tempo para discutir verdades de fé e verdades de razão com o Nobel da Literatura português. Talvez fosse uma conversa interessante, mas não tenho tempo. Lamentavelmente, não tenho tempo. Nem eu, nem o Saramago, que tem mais que fazer...
Como é sabido, livros semi-proibidos têm grande poder de atracção. Já não pegava na Bíblia há imenso tempo (embora a conheça razoavelmente bem), mas hoje reli um bocadinho do Genesis (bem sei que foi a correr...). Espero que não me faça mal, até porque, em tempos, li o Evangelho Segundo Jesus Cristo deste escritor - todo!, e não notei qualquer efeito pernicioso. Do que não gosto mesmo nada, e noto que me faz muito mal, é da ideia de livros na fogueira. Felizmente, são coisas do passado... É por estas e por outras que até gosto de viver no século XXI. A liberdade é uma coisa muito bonita. É por isso que ora trabalho, ora leio. Quando tiver umas férias, prometo que leio o Caim.


Imagem: pesquisa do Google


segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Séraphine de Senlis



Gosto do cinema francês, mas lamento que seja tão pobremente distribuído nas nossas salas de cinema, dominadas pela indústria cinematográfica norte-americana. Nada tenho, à partida, contra os filmes desta proveniência, muitos deles excelentes. O que critico, porque me parece empobrecedor, é a falta de equilíbrio, ou melhor dizendo, a escassez de alternativas.
Pois bem, este é um filme algo desintoxicante a este nível. É também um filme muito belo, segundo várias perspectivas: estética, existencial, artística, e até holística, pela intensa fusão do ser humano com a natureza, a qual, de certo modo, enaltece.






Realizador: Martin Provost

No papel de Séraphine: Yolande Moreau


Imagem: pesquisa do Google

domingo, 18 de outubro de 2009

Vêm aí os U2

Bom... é só daqui a um ano, mas... parece uma boa perspectiva. O concerto será em Coimbra, a 2 de Outubro de 2010. Os bilhetes já estão à venda (quase ou mesmo já esgotados) e levaram os fans a sofrer tormentos terríveis para adquirir alguns.
Sorte minha: tenho um bilhete! Pessoalmente, nunca o compraria com um ano de antecedência. Mas, não sendo assim, provavelmente, nunca chegaria a vê-los alive.




quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Questões de pragmatismo

É excelente quando se vê obra feita, quando à volta tudo gira num esplêndido carrossel de conforto e alegria. Sem dúvida, o ideal é uma vida neste tipo de mundo, onde o sucesso é uma constante e o desenvolvimento uma realidade. Pese embora a constatação, que pode estragar o perfeito retrato, de que só alguns podem usufruir desse mundo (e restaria saber a troco de quê...).
Se quanto a este legítimo desejo (o de uma vida boa) não há que colocar objecções, o mesmo não acontece quando subsistem questões. Neste tipo de mundo, supostamente paradisíaco, elas são incómodas, já que se temem perturbações no melhor dos mundos possíveis. Portanto, dizem alguns, o melhor é não as colocar. No entanto, dirão outros, é urgente trazê-las para perto da vida.
Uma questão é: se tudo está bem, importa saber quais os meios para alcançar o paraíso? - está tudo bem, é o que basta? - será que é preciso mais para o progresso da humanidade? Sim, porque se trata de um mundo humano. E pouco desta condição é algo simples, directo e linear. Afinal, o que é o progresso?

Um caso:
«A história do papel de Suharto na Indonésia também levanta a questão delicada de saber se quem está de fora devia fazer alguma coisa contra a corrupção. Apesar da aparente corrupção do regime de Suharto, o país conseguiu uma notável taxa de crescimento económico de 6 por cento ao ano durante os trinta e dois anos do seu reinado, tornando o país um dos grandes casos de sucesso da história moderna (...). Embora o clã de Suharto se tenha apoderado de mais do que devia ser a sua parte, as taxas de pobreza caíram dramaticamente nos anos em que governou e os programas de educação pública, de saúde e de planeamento familiar foram bastante expandidos. Havia riqueza que chegasse para que um pouco se reflectisse no indonésio comum.
(...) em geral, os países corruptos não crescem depressa, mas a Indonésia de Suharto foi uma excepção.
(...) Para o melhor e o pior, o regime de Suharto era conhecido por manter o controlo sobre os subornos, removendo a incerteza que é parte natural de quase todos os negócios ilícitos. Nas palavras de um executivo estrangeiro com décadas de experiência de negócios em Jacarta, "havia um preço para tudo e toda a gente o conhecia e sabia o que obtinha pelo que pagava". Pelo contrário, o mesmo executivo lamentava que na Indonésia pós-Suharto de hoje, "em vez disso, exista o caos".
(...) Apesar de todos os seus defeitos, Suharto impôs uma disciplina draconiana e estabilidade a um país que antes conhecera o caos, e é difícil adivinhar o que poderia ter acontecido sem a sua liderança. Na década que decorreu desde que Suharto perdeu o poder, emergiu uma democracia vibrante, que ainda não conseguiu as taxas de crescimento económico do tempo da ditadura corrupta de Suharto.
No entanto, é provável que isto não deva mudar a nossa posição geral sobre a redução da corrupção. São poucos os países corruptos com o sucesso económico da Indonésia de Suharto. De qualquer forma, o êxito da Indonésia estraga um pouco o argumento a favor dos benefícios de acabar com a corrupção. Os decisores políticos e as instituições de ajuda ao desenvolvimento gostam de receitas de acção simples, mas infelizmente o mundo é complicado e ambíguo. (...)»
in Raymond Fisman, Edward Miguel, Gângsteres Económicos - Corrupção, Violência e a Pobreza das Nações *


[*leituras para escapar ao tédio das belas fotografias (a classificação é minha)]


Imagem DAQUI

Regresso ao futuro

Muitas vezes, diz-se: nunca regresses a um lugar onde já foste feliz. Mas como não procurar todos os lugares que nos parecem compatíveis com...