Ontem, casualmente, dei comigo em revisitação de India Song. Um filme que sempre me foi difícil. E é já neste quarto confronto, que se dá o encontro: deixo-me ficar no tempo lento... lento. E passa tão devagar que fica... parado na magia dos instantes. Não sei o que é o tempo. Mas sinto-o quando é presente. É esse o tempo da amizade. O tempo do amor.
Dobrado o Cabo das Tormentas, ficou o Cabo da Boa Esperança. E agora, que nos espera depois de dia 27? Um país vivo e colorido? Enérgico e empreendedor? Procurei respostas por longos e turbulentos caminhos... Só uma me convenceu. Para amenizar os prognósticos, tem forma musical. Haja alguma coisa que me anime.
"Tudo aquilo continuaria, aquelas ondas, aquelas rosas do mar a abrigarem pétalas secas pelo sol na areia. (...) Era uma praia agreste e nada pública, incrivelmente extensa e salpicada de velhos ossos de troncos desgastados. (...) Às vezes ficava à borda da água, deixando que a espuma lhe rodeasse as canelas. (...) Conchas nas ondas, barcos ao longe e a afastarem-se ainda mais.
Ou a aproximarem-se. (...) E por fim chega uma altura em que uma pessoa pergunta: «Que raio fiz eu?». (...) O mar perguntou o mesmo, as gaivotas repetiram o que o mar dizia."
Claro que nada disto é novidade. Mas, olhando à minha volta, face a tantas incertezas deste nosso mundo actual, perante as complexas previsões para o nosso futuro, sou conduzida a uma espécie de consciencialização acrescida das marcas deste novo século. As tendências do desenvolvimento, a orientação mais ou menos desorientada que lhe é imprimida, as novas faces que revelam as nossas identidades, e, ainda mais, o modo como lhes damos maior ou menor consistência - em fusão com os mais sofisticados meios tecnológicos; tudo razões para pensar a irreversibilidade do tempo, para mergulhar, mais ou menos penosamente, com maior ou menor entusiasmo, na complexidade do universo de que fazemos parte, enquanto elementos integrantes das sociedades humanas.
Verifico que já não é possível pensar com base em dicotomias simples. Podemos acreditar, sem dúvida, que um modelo de desenvolvimento assente numa intervenção total do Estado falhou, quando o confrontamos com os resultados dados pelo passado; podemos também inquietar-nos com a crise alcançada pelo modelo em que temos vivido, onde a contínua criação de riqueza nos transmitiu grande optimismo. Sentimos agora que ele encontra dificuldades em manter-se sustentável. Necessariamente, surge inquietação. Também preocupação.
Podemos, no entanto, perspectivar esta espécie de enclausuramento do mundo nos próprios caminhos que traçou, segundo uma óptica mais optimista: pode residir precisamente neste estado de coisas, nesta relativa desordem do actual mundo económico e social, a primeira etapa para criar novas soluções. Necessárias. E se arriscarmos em modelos híbridos, é preciso clarificá-los. Medir riscos, e ainda assim corrê-los. Cada vez temos menos certezas. Mas o mundo não pára...
Do excelente blogue Restolhando, que vos convido a visitar, chegou aqui ao Catharsis este prémio igualmente muito divertido, e significativo. De facto, "ficar de olho" no pouco que aqui vou construindo, é uma grande honra para mim. O meu muito obrigada à querida Maria Josefa Paias por este gesto, o qual constitui um estímulo para a modesta construção e (re)criação deste blogue.
Na sequência desta nomeação, devo indicar 10 blogues que considere a ter "debaixo d'olho". Assim sendo, eis aqueles que assinalo:
Muito obrigada à GJ, pela atribuição deste prémio ao Catharsis. Na verdade, vou ter que reconhecer: fiquei muito vaidosa!
1. De acordo com o indicado, tenho que assumir três compromissos para o futuro. Portanto, aqui os apresento: - Escrever mais, já que é algo que me dá um verdadeiro prazer pelo prazer; - Ser mais paciente e compreensiva com o mundo em geral, identificando com clareza os limites dessas minhas atitudes; - Ter mais cuidado com a minha saúde, para poder, entre outras coisas de que gosto, continuar a blogar :)
2. Devo também premiar dez blogues viciantes. Nomeio os seguintes:
Confesso, conseguiram entreter-me bastante. Estava eu a tentar inteirar-me de coisas sérias, a preparar-me para um bom - leia-se responsável - exercício da minha cidadania... eis senão quando, sou aprisionada no último episódio do folhetim pré-eleitoral. Estou agora deveras preocupada com a questão da garantia das liberdades de expressão (questão efectivamente séria, demasiado séria). E esta preocupação rivaliza, sem dúvida, com a que sinto face ao aumento do desemprego, perante as incógnitas que esboçam o futuro das minhas filhas, quanto à sua segurança, saúde e educação, só para citar alguns tópicos incontornáveis... Acreditando que temos liberdade, tal como julgo elas terão, para nos manifestarmos e agirmos positivamente em relação a tudo isso.
Certamente, a questão da liberdade de expressão e de informação não é um problema menor. Ao contrário, é uma verdadeira questão prévia. Dito de outro modo, é o único pano de fundo admissível para todos os possíveis contornos de debate. Trata-se de um pressuposto indispensável em democracia. Daí que lamente, enquanto estou entretida (até me entediar), o facto de o tema não ter um tratamento à altura, com toda a seriedade que ele exige, no tempo próprio e adequado. Inversamente, ele é arma de arremesso, não se sabe bem de que lado para que lado... O estilo actual é mesmo este: não exaustivo, não rigoroso, não conclusivo. Mas não há equívoco quanto ao facto de a política ser, hoje, e cada vez mais, um verdadeiro manto diáfano da fantasia sobre a nudez forte da verdade, parafraseando Eça. Ao assunto voltarei, suponho, num outro instante qualquer de clima ao rubro. Obviamente, como "filha" do meu tempo, e quanto às minhas modestas ideias, não serei exaustiva, nem rigorosa, nem conclusiva.
Michael Ruse é um filósofo da ciência, entusiasta e cativante para as grandes questões. Tem a capacidade de comunicar, dirigindo-se ao grande público. No seu estilo descontraído, embora rigoroso, coloca, por exemplo, a questão: "Pode um darwinista ser cristão?", sendo este o título de um dos seus livros. Esteve em Lisboa, em Janeiro de 2009, para uma conferência integrada nas comemorações do Ano Darwin.
De referir que Michael Ruse veio a tornar-se mais conhecido do grande público, sobretudo pelo seu determinante testemunho num interessante caso que opôs evolucionismo e criacionismo, designado por "McLean contra Arkansas". Em concreto, este processo judicial averiguava acerca da legitimidade de ensinar, nas escolas públicas norte-americanas, uma teoria que se propunha ser ciência, sem respeitar os critérios que determinam se algum tipo de conhecimento é ou não científico: o chamado Projecto (ou Design) Inteligente. Neste caso, Ruse posicionou-se a favor das exigências da ciência. No entanto, continua a aprofundar toda esta problemática, já que soluções simplistas não são aqui possíveis, no seu entender.
Neste processo, entre muitos e interessantes aspectos acerca da ciência nele abordados, interessou-me a perspectiva (e respectivas provas) da genética. É assim que podemos verificar que o nosso parentesco com os grandes primatas ficou provado, algures no par de cromossomas 2 do nosso código genético (genoma humano). Na verdade, ao compararmos o n.º de cromossomas do ser humano com o deles, verifica-se que apenas nos separa a diferença entre 46 cromossomas (organizados em 23 pares), contra 48 (24 pares) dos gorilas, chimpanzés, orangotangos. O que nos é explicado - se, em rigor, existe uma relação entre ambos os códigos genéticos (um antepassado comum) -, é o facto de ter ocorrido a união de 2 pares de cromossomas no homem, no decurso do seu passado evolutivo. Portanto, o cromossoma que falta (simplificando), não desapareceu, fundiu-se com outro.
Como se chegou a tal conclusão, é isso que pode ver-se neste excerto de um interessante documentário (ver video), que reconstitui todo o processo "McLean contra Arkansas". Em consequência das provas apresentadas, a decisão final foi a de impedir o ensino da perspectiva criacionista, enquanto teoria fundamentada cientificamente, aqui designada por Design Inteligente.
Quanto à questão colocada por Michael Ruse, "Pode um darwinista ser cristão?", a sua resposta é: "Sim". Evidentemente, o tema constitui uma história interminável... E ainda bem.
«A imagem da praia, este vislumbre dos representantes da cultura que gozam despreocupados à beira-mar os prazeres dos sentidos, distraiu-o e alegrou-o como sempre. (...) Quero ficar, pensou Aschenbach. Que outro lugar seria melhor? E com as mãos cruzadas no colo, deixou que os olhos se perdessem na imensidão do mar, deixou que o olhar fugisse, se fundisse e diluísse na neblina monocórdica do espaço deserto. Amava o mar por razões profundas: a necessidade de repouso do artista fatigado que tenta encontrar abrigo na vastidão não complexa para as muitas formas e caprichos da sua fantasia; uma inclinação, contrária ao seu trabalho e logo também mais apetecível, para o desmedido, para o incomensurável e eterno, para o nada. Repousar na perfeição é o desejo de todos os que procuram a excelência; e não será o nada uma forma de perfeição?»