ando eu a tentar arrumar papéis e mil e uma coisas acumuladas pelo tempo fora... não é fácil passear por entre tanto vestígio do que cai do tempo e se amontoa à volta, e ao mesmo tempo eliminar, deitar fora. um pequeno conflito que se vai resolvendo com algum empenho que é preciso cultivar. o engraçado, mas que não é novidade nenhuma - afinal, novidades absolutas não há -, é que subitamente dei comigo a pensar na quantidade imensa de coisas que acumulamos dentro de nós, ao longo desse mesmo tempo. portanto, nesta ordem de ideias, dei comigo a pensar que há certamente uma espécie de vistoria a fazer, porque tenho certamente uma data dessas tais milhentas coisas que não interessam para nada a ocupar-me o pensamento, a consciência e, quem sabe?, o inconsciente. não vou conseguir libertar-me de todas elas, mas se apagar umas quantas, talvez melhore o meu olhar sobre o mundo. pois, mas isso seria num outro universo, que não neste. aqui, a nossa memória retém tudo algures. mesmo sem darmos conta, fica tudo registado. já pensei na hipótese da reciclagem - reciclar conteúdos nocivos, tóxicos, e etc... induzi-los a uma metamorfose que é precisamente a do tempo que há em mim, e a que de mim há no tempo. vou investir mesmo aí, nessa actividade interior um bocadinho trabalhosa. que me permitirá (assim espero), à laia de exemplo que gosto de utilizar, olhar uma flor com prazer e encanto, mesmo sabendo que não tarda a flor vai morrer. afinal, é preciso não esquecer que também há flores secas. e essas duram muito mais.
segunda-feira, 18 de junho de 2012
domingo, 17 de junho de 2012
Era uma vez na Anatólia
Imagine-se um filme lento e nocturno, onde nada de muito interessante parece acontecer. É assim que começa Era uma vez na Anatólia (2011), o mais recente filme de Nuri Bilge Ceylan, e vencedor do Grande Prémio do Júri no Festival de Cannes 2011. Mas o facto de nada ter lugar de forma assombrosa pode ser bom sinal. São 150 minutos de filme e a aridez dos lugares parece vir a aborrecer. A pouco e pouco, por via dos diálogos vagarosos e da cinematografia sublime, ficamos perante uma Turquia profunda onde a vida é tudo menos fácil. Há uma viagem em busca de um corpo escondido. O percurso é algo vagueante e errante, um pouco como acontece na vida. O ambiente nocturno transforma as estepes turcas num espaço intimista que convida às confidências dos homens. O estilo road movie conduz-nos numa viagem também ao interior de cada um. A profunda escuridão é pontuada pelos faróis dos carros que serpenteiam ao longo da estrada. Até chegar a uma aldeia esquecida onde a morte se debate: é preciso construir morgues e cuidar dos cemitérios. A luz eléctrica falha onde falha o desenvolvimento. No lusco-fusco das lanternas o destino da viagem decide-se e prossegue a busca. Mas só pela manhã o corpo é encontrado.
O crime é humano, sabemos isso. O criminoso deve ou não ser tratado como tal? Como elaborar os relatórios que devem estar para além das paixões humanas, demasiado humanas? Como transportar um corpo sem o respectivo saco, esquecido negligentemente? Porque é que a ambulância está avariada? Como é possível realizar uma autópsia sem o kit adequado? Mas um computador portátil surge no deserto... O procurador é ou não parecido com Clarke Gable? É a Turquia Europa ou não?
Tudo oscila por entre visões astrológicas, fantasmas e mistérios, ou explicações racionais. A mulher está sempre presente mas invisível. Símbolo de luz e paliativo ali mesmo no centro da dureza da vida. Beleza simples e luminosa que assombra a crueza extrema do realismo.
É só o melhor filme que vi nos últimos tempos. Premeditadamente sério, é-o, mas esse é só um pequeno detalhe a considerar. Acima de tudo, sereno e belo como o conseguem ser os verdadeiros mestres.
sábado, 16 de junho de 2012
um talvez poema que só pode ser assim
ah o passar do tempo de outrora
plácido sossego de então
há quem diga de mim bucólica
e agora
que o tempo voa
ecoa na minha pele
como tamborilar de chuva
num dia sem mel
à hora da matéria do crepúsculo
ainda como nuvem me revejo
roçando o céu
arrisca-se um desejo
e em cima outro
esboço vagueante do meu desenho errante
que é sempre em vão a forma inteira
estranha sintaxe em tudo isto
que é pura sensação
de tarde ou noite
a hora mais parada
transforma-me a memória
e vou
ao espaço-tempo dessa áfrica
terra escura
tambores no coração
beber a imensidão de então
nas folhas sufocantes da matéria
na viscosidade multicolorida
na espessa textura denso toque
e um sonho verde tão verde asfixiante
transporta-me o cheiro do deserto
o ácido combustão a morte dos bravos animais
ao longe escondem-se velhos feiticeiros
vendem-se cestos nos lugares perdidos
e há macumbas que sopram proibidas
nos idiomas ferozes
ressuscitados por entre a escuridão
e mais não é preciso
abro a porta faço vento
o tempo passa por ela
as minhas mãos agora
com a força da intenção
largam exactamente à hora
barquinho de papel navega
e brinco contigo ao longo das colinas
espaços corridos doces
desvelam luminosos
a imaginação
pois esta é uma data no planeta terra
local portugal
modo digital
lugar virtual
regista-se afecto e sensação
assim
A.P.
sexta-feira, 15 de junho de 2012
quinta-feira, 14 de junho de 2012
imagem 4
densidade:
ser capaz de dizer
com as mãos cheias
de palavras inventadas
"dedos para agarrar
o ser
contido no volante do carro
e eu
movimento do ente
por segundos existo
quando faço pisca-pisca"
alternativa:
conduzo
e em cada curva apertada
rumo ao centro
como amoras bem escurinhas
na incógnita do momento
toco-te demoradamente
(sei: quando escrevi estava escuro.
acende-se a luz depois.)
ser capaz de dizer
com as mãos cheias
de palavras inventadas
"dedos para agarrar
o ser
contido no volante do carro
e eu
movimento do ente
por segundos existo
quando faço pisca-pisca"
alternativa:
conduzo
e em cada curva apertada
rumo ao centro
como amoras bem escurinhas
na incógnita do momento
toco-te demoradamente
(sei: quando escrevi estava escuro.
acende-se a luz depois.)
quarta-feira, 13 de junho de 2012
o evento e um busto de Freud
![]() | |||
| Oscar Nemon trabalhando no busto de Sigmund Freud (1931) |
O doutor Cardoso começou a comer o linguado à moleira e Pereira seguiu o seu exemplo. Precisava de conhecer melhor estes últimos meses da sua vida, disse o doutor Cardoso, talvez tenha havido algum evento. Algum evento em que sentido, perguntou Pereira, que quer dizer com isso? Evento é uma palavra da psicanálise, disse o doutor Cardoso, não é que eu siga muito o Freud, porque sou um sincretista, mas no que respeita ao evento acho que ele tem toda a razão, o evento é um acontecimento concreto que se verifica na nossa vida e que abala ou perturba as nossas convicções e o nosso equilíbrio, enfim o evento é um facto que se verifica na vida real e influi na vida psíquica, o senhor deveria reflectir se na sua vida houve algum evento. Conheci uma pessoa, afirma ter dito Pereira, ou antes, duas pessoas, um rapaz e uma rapariga. Fale-me lá neles, disse o doutor Cardoso.
Antonio Tabucchi, Afirma Pereira
terça-feira, 12 de junho de 2012
um poema de Tomas Tranströmer
As pedras
As pedras que atirámos, ouço-as
cair, cristalinas, ao longo dos anos. No vale,
as confusas acções de um instante
voam chiando de
copa em copa e silenciam-se
e desvanecem-se mais que o agora, deslizam
como andorinhas de cume
em cume, até que tenham
atingido o mais afastado dos planaltos
ao longo da fronteira do ser. Onde todos
os nossos atos caem
cristalinos
sem mais sítio em que cair
que não em nós mesmos.
in Tomas Tranströmer, 17 Poemas (1954)
[fresco? ou será pesado?]
poesia e acesso à realidade
Tomas Tranströmer recebeu o Nobel da Literatura em 2011. trata-se de um poeta que me é desconhecido, e acerca do qual pretendo saber algo mais... por outro lado, pareceu-me interessante o motivo invocado pela Academia Sueca para a atribuição deste prémio: "... porque nos possibilita um acesso fresco à realidade". ora, esta designação de frescura, adjectivo que já li algures ser criticado por algumas pessoas, na medida em que faz lembrar legumes ou fruta fresca... bom, a verdade é que eu não desgosto do termo. e não quero discorrer muito sobre. mas a questão de um acesso à realidade interessa-me. o que pressupõe que, se calhar, estamos mergulhados na realidade, mas não a vemos tal e qual. coisa que o poeta será capaz de fazer. ou então, vemos a realidade, sim, mas sempre segundo o nosso prisma. que pode não ser tão fresco como o de Tomas Tranströmer. é mesmo tudo isto que penso gostarei de averiguar um pouco. este vídeo que aqui trago ajuda a conhecer melhor o autor.
mas que nada
ensaiei um olhar de resistência pacífica. olhei o abjecto e contive-me. na lama boiavam pedaços de espinha dorsal. dizem que o homem é sapiens sapiens e eu duvido. é devagar que se aprende a sustentar o brilho das luzes e o ruído sibilante das vozes. nunca se pode medir com precisão a quantidade exacta. ou o peso concreto. a parte do eu que pactua com o intolerável. rejeito a festa dos importantes ao cair da noite. não concebo perder nem mais um grama de ser. o peso maior sustenta-se no silêncio. amanhã cumprimenta-se a iniquidade vitoriosa. sustém-se a superficialidade levezinha da fama que singra nesta fábrica urbana de tiradas tóxicas. transportadas de cá para lá. e de lá para cá. há jovens descrentes. fazê-los sorrir é abrir a janela. o mundo inteiro concentrado numa flor. a única matéria que quero estudar. eu mesma na metafísica do sorriso. e os outros na biologia da flor.
Subscrever:
Mensagens (Atom)
Regresso ao futuro
Muitas vezes, diz-se: nunca regresses a um lugar onde já foste feliz. Mas como não procurar todos os lugares que nos parecem compatíveis com...
-
Fui ver 12 anos escravo . É um filme sério. Muito sério. Regra geral, a escravatura é tema abordado segundo a sequência: de uma tot...
-
Há poesias que nos visitam dos confins do tempo... É o caso da de Rumi , a qual, à medida que se descobre, tem o poder de nos levar a acredi...



