sexta-feira, 11 de maio de 2012

imagem 2

o sol queimando muito ao longe
o carro voando com motor
move-me a vida
e gasto-me oxidante
combustível
na aguarela do ardor
falta-me ainda uma cor

A.P.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

em busca do bosão de Higgs


imagem Daqui

Ontem, eu e os alunos tivemos direito a física de partículas elementares. É muito pouco o que sabemos sobre a matéria no universo. Há nele uma quantidade imensa de energia e de matéria escura ou negra. Ignoramos o que é. Posto isto, incrível é não desistirmos e, pelo contrário, insistirmos. O que sabemos sobre a matéria anda pelos escassos 4%, como explicou Pedro Abreu do IST. O resto, que é tanto! - um desequilíbrio descomunal -, por enquanto, é-nos desconhecido. Acresce ainda: se o Bosão de Higgs não for encontrado, até os tais 4% podem cair por terra. Fazer ciência é difícil. O conhecimento é difícil. A vida, afinal, é difícil. Não vale desistir. Há muita investigação para fazer. Venham os jovens!


segunda-feira, 7 de maio de 2012

imagem 1

o vento bulício nos cabelos
a chuva correndo sob os pés
e a tua imagem
tão beijo desejado
passava
mesmo à tangente de mim

A.P.

domingo, 6 de maio de 2012

para as minhas filhas


Há duas coisas que me enchem o espírito de crescente admiração e respeito, quanto mais forte e frequentemente a elas se dirige o meu pensamento: o céu estrelado acima de mim e a lei moral em mim.  
Kant, Crítica da Razão Prática

Northern Lights - Philippe Moussette (Obs. Mont Cosmos)

[sendo que a segunda, de natureza imediatamente invisível, é frequentemente mais difícil de ver]


sábado, 5 de maio de 2012

bonito e belo

A beleza pode ilustrar um ideal, uma perfeição. Ou, devido à sua identificação com as mulheres (mais exactamente, com a Mulher), pode desencadear a habitual ambivalência decorrente do secular aviltamento do feminino. Muito do descrédito da beleza deve ser entendido como um resultado da inflexão do género. Também a misoginia poderia estar subjacente ao impulso de metaforizar a beleza, colocando-a desse modo acima do reino do "meramente" feminino, o menos sério, o superficial. Na verdade, se as mulheres são veneradas porque são bonitas, são tratadas com condescendência pela sua preocupação em se tornarem ou manterem bonitas. A beleza é teatral, é para ser contemplada e admirada; e a palavra tanto faz pensar na indústria da beleza (revistas de beleza, salões de beleza, produtos de beleza) - o teatro da frivolidade feminina - como nas belezas da arte e da natureza. Como explicar de outra maneira a associação entre beleza - isto é, mulheres - e vacuidade? Preocupar-se com a sua beleza é incorrer na acusação de narcisismo e frivolidade. Consideremos todos os sinónimos de beleza, a começar por "adorável", o meramente "engraçada", que clama por uma transposição viril. 
Diz-se: "Bonito é o que bonito parece." (Mas não: "Belo é o que belo parece.") Embora se possa aplicar tanto quanto "belo" à aparência, "bonito" - desligado de associações com o feminino - parece um modo mais sóbrio, menos efusivo de elogio. A beleza não é normalmente associada à gravitas. Assim, é possível que se prefira designar o livro que serve de veículo à divulgação de imagens insuportáveis de guerra e de atrocidades como "um bonito livro", como eu fiz no prefácio a uma compilação de fotografias de Don McCullin, receando que considerá-lo "belo" (que o era) fosse visto como uma afronta, dado o seu tema chocante.
 Susan Sontag, Um Debate sobre a Beleza


meus queridos olhos

eu devia poupar os olhos. eu devia evitar feri-los. eu podia olhar uma larga planície e descansar. eu podia não seguir o curso voraz do olhar que consome todas as horas. olhos abertos ou fechados. o olhar engole tudo antes de pensar olhar. só depois e em pequenos intervalos é possível decantar o fardo do que se viu e dele retirar para um lugar de decidido privilégio o que é mesmo para ver. 
observar a manipulação de uma imagem na qual transparece uma violência de intenções: é possível. mas há estratégias de marketing que não deveriam ser escolhidas. por exemplo: não é de assinalar o valor intelectual de alguém em suposta homenagem utilizando como chamariz os seus atributos físicos. que a pessoa os possui pode ser um facto a considerar. mas que seja por essa via que se chegue ao ponto que se quer focar só pode ter duas leituras: ou há um vale tudo para chamar a atenção ou o objectivo afinal era outro. designo isto muito simplesmente por intelectualidade altamente requentada. 

sexta-feira, 4 de maio de 2012

beautiful relax




em câmara lenta

Fotograma do filme Em Câmara Lenta - Fernando Lopes (2011)


às vezes não vale a pena dizer nada. uma imagem pode mesmo valer por mil palavras. apesar disso, pronuncio ainda algumas. digo palavras como segunda pele ou fato contra a hipotermia que domina. e digo também não ir ao fundo - há-de nascer um dia para nos deixarmos ir até lá. um braço levantado pode ser tudo o que resta. continuo a precisar de lições de natação - eu. e este país de mar também. é tudo muito lento agora. nada escapa ao abrandamento. é proibido deixar de nadar - liberdade ou necessidade?


quarta-feira, 2 de maio de 2012

poesia ao sol com eterno retorno


Canção Diurna do Viandante

As flores são as formas
completas das
estrelas que a luz solar devora

Vagueio entre elas
urdindo a viagem diurna
da imperfeição A primavera aberta nas

margens incandescentes
alberga a
dor das formas ilusão

do estio primitivo
como se flores, de
novo, perfeitas nos cobrissem

Gastão Cruz, Poemas Reunidos


[seja como seja, Marta, é bom estudar contigo!]


Ayo




química(s)

Chamamos afins às naturezas que ao encontrarem-se se prendem rapidamente uma à outra e se influenciam de um modo recíproco. Nos alcalinos e nos ácidos, que, sendo os mais opostos entre si, e talvez precisamente por isso, são os que mais se procuram e combinam modificando-se para juntos formarem um novo corpo, é bastante notável a referida afinidade. Pensemos somente na cal, que tem uma grande inclinação para todos os ácidos, uma decidida vontade de se unir a eles. Tão depressa cheguemos ao nosso gabinete de química lhe faremos diversos ensaios que, além de serem muito interessantes, nos ajudarão melhor a formar uma ideia do que as palavras, nomes e termos científicos.
----------------------
(...) Assim, por exemplo, o que chamamos pedra-calcária é uma terra calcária mais ou menos pura, intimamente unida a um ácido subtil, que se nos dá a conhecer em forma de gás. Ora bem: se pomos um fragmento dessa pedra numa solução de ácido sulfúrico, a pedra ataca a cal e aparece depois unida a ela em forma de gesso, enquanto o ácido subtil, gasoso, se volatiliza. Produzem-se aqui, pois, uma nova separação e uma nova combinação, e cremos ter direito a empregar mesmo a expressão afinidade electiva, já que efectivamente nos aparece como se tivesse preferido uma relação a outra e a elegesse para o seu lugar.
Goethe, As Afinidades Electivas

(...mas há mais...)


Regresso ao futuro

Muitas vezes, diz-se: nunca regresses a um lugar onde já foste feliz. Mas como não procurar todos os lugares que nos parecem compatíveis com...