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Lisboa, 3 de Maio de 1914
Releve-me o ser tão pouco estético o papel em que lhe escrevo. Mas é o que tenho à mão e eu sinto absoluta a necessidade de lhe escrever.
Lisboa, 3 de Maio de 1914
Meu caro João:
Releve-me o ser tão pouco estético o papel em que lhe escrevo. Mas é o que tenho à mão e eu sinto absoluta a necessidade de lhe escrever.
Neste dia de sol, claro e simples, assaltou-me um tédio de tal maneira profundo que não o posso exprimir senão expondo-lhe que sinto uma mão a estrangular-me a alma.
Li hoje, pela não-sei-que-éssima vez, parte do seu livro e fez-me bem, como sempre me faz, por tão bem me falar do seu mal.
Escuso de empregar o vulgar «não imagina» para lhe descrever o abismo de torpor de todo o Eu em que estou caído; sei de sobra que v. imagina isso muito bem, para mal da sua felicidade.
Estou num destes momentos em que tudo perde o sabor a vida que tem e em que adoece dentro de nós o nosso modo de sentir as coisas; repare que eu digo que adoece, não as sensações, mas o modo como elas são sensações.
Estou talvez fatigando-o com isto. Desculpe-me que o faça. Sou impelido a fazê-lo.
A propósito de tédios, lembra-me perguntar-lhe uma coisa... Viu, num número do ano passado, de A Águia, um trecho meu chamado Na floresta do alheamento? Se não viu, diga-me. Mandar-lho-ei. Tenho imenso interesse em que v. conheça esse trecho. É o único trecho meu publicado em que eu faço do tédio, e do sonho estéril e cansado de si-próprio mesmo ao ir começar a sonhar-se, um motivo e o assunto. Não sei se lhe agradará o estilo em que o trecho está escrito: é um estilo especialmente meu, e a que aqui vários rapazes amigos, brincando, chamam «o estilo alheio», por ser naquele trecho que aparece. E referem-se a «falar em alheio», «escrever em alheio», etc.Aquele trecho pertence a um livro meu, de que há outros trechos escritos mas inéditos, mas de que falta ainda muito para acabar; esse livro chama-se Livro do Desassossego, por causa da inquietação e incerteza que é a sua nota predominante. No trecho publicado isso nota-se. O que é em aparência um mero sonho, ou entressonho, narrado, é - sente-se logo que se lê, e deve, se realizei bem, sentir-se através de toda a leitura - uma confissão sonhada da inutilidade e dolorosa fúria estéril de sonhar.
Tenho-lhe falado de mim demasiadamente. Queria ter agora, neste momento, ao mesmo tempo em que as estou desejando, extensas novas suas. O que v. tem feito? Tem escrito? E tem escrito versos?
Espero para breve notícias suas. Se me pudesse escrever, não um postal, mas uma carta...!
Como vê pelo en-tête desta carta, mudei de residência. Mudei há três dias apenas.
É para aqui que me deve escrever agora.
Adeus. Um grande e fraterno abraço do
Muito e sempre seu
Fernando Pessoa
14 de Maio.
Escrita a 3 de Maio, esta carta vai para o correio a 14. Como v. vê continua aquela minha característica de atrasar mesmo aquilo que parece impossível que se atrase.
Enfim...
[A João Lebre e Lima]
Imagem: pesquisa do Google









