o que mais custa entender é a felicidade. o céu azul ofuscado pelo sol impiedoso à semelhança da impiedade na terra quando se cortam os humanos em postas para cozinhar à la carte em lume brando. e todos vivem felizes porque se assim não viverem os deuses podem discernir na tristeza e declaração de insatisfação um hipotético sinal de fraqueza ou... isso. o que mais custa entender é a felicidade diária como se fosse questão de repetição assegurada pelos dias sucessivos do nascer do sol ao sol posto e tudo está no seu lugar porque é assim simplesmente. como se a felicidade não fosse apenas coisa de um instante ou então como se não fosse tudo aquilo que é difícil manter. o que mais custa é a felicidade infeliz. o que mais custa é o canto dos passarinhos como se não povoassem os céus abutres. o que mais custa é a falta de gravidade sem nunca chegar a levitar. o que mais custa é isto tudo repleto de nadas.
domingo, 21 de abril de 2013
Antiguidade
(...) a expressão de Dionísio é verdadeira: ele dizia com efeito que o maior benefício do governo era fazer o que queria com facilidade. Existe portanto um grande perigo que aquele que pode fazer o que quer queira o que não deve.
Plutarco, A Um Dirigente Sem Educação
terça-feira, 16 de abril de 2013
caviar
por entre tanta comentação que agora há, deparei-me ultimamente com uma útil informação (não posso precisar vinda de quem, dada a crescente multiplicidade de comentadores existente por estes tempos). mas fiquei a mastigar o caso. ei-la: agora, além de uma esquerda caviar, há também entre nós uma direita caviar. bom, eu até acredito, mas não comento (acho que chega de comentadores, apesar de sempre ter previsto que tal actividade viria a tornar-se uma carreira promissora). limito-me a perguntar: onde é que está o caviar??!!! é que a gente também quer!!!
domingo, 14 de abril de 2013
agora que veio o sol
![]() |
| Shadows and Fog, Woody Allen (1991) |
pode dizer-se que vivemos entre sombras e nevoeiro. vem isto a propósito de um filme meu favorito inesperadamente revisto - de Woody Allen. e vem também a propósito desta permanente indefinição em que vivemos aqui por terras lusas - já não sabemos quem é quem nem de que terra é. qual o quadrante onde devo situar aquele? e o outro? tudo se esfuma e não é numa só noite, como no filme. nem num só dia. é mesmo ao longo dos dias, das semanas e dos meses... e cada um pode confundir-se com outro... afinal não estamos sempre aptos ou predispostos a percepcionar tanta complexidade. tanta urdidura. temos de poder confiar nas coisas. é muito importante - diz Kleinman. o problema é que, tal como ali, estamos envoltos em névoas. tal como ali, não sabemos quais as alternativas. e qualquer dia, tal como lá, seremos identificados pelo cheiro. absurdo? sim, mas o universo pode tornar-se eminentemente kafkiano. sombrio e nublado. do mesmo modo, na ausência de algo claro e evidente rompendo o nevoeiro, nada impede que deixemos de acreditar, ao ponto de duvidar da nossa própria existência.
é por estas e por outras que gosto do expressionismo alemão. mesmo revisitado.
Etiquetas:
Sombras e nevoeiro. Woody Allen.
sexta-feira, 12 de abril de 2013
segunda-feira, 8 de abril de 2013
E vós, Tágides minhas...
A filosofia mostra-nos que seria absurdo acreditar que um dia esgotaremos o que é pensável, o que pode ser feito e formado, da mesma maneira que seria absurdo colocar limites ao poder de formação que jaz sempre na imaginação psíquica e no imaginário colectivo sócio-histórico. No entanto, não nos impede de constatar que a humanidade atravessou períodos de enfraquecimento e de letargia, tanto mais insidiosos porquanto acompanhados por aquilo a que se convencionou chamar um «bem-estar material». Na medida em que isso depende, em maior ou menor grau, daqueles que têm uma relação directa e activa com a cultura, no caso de o seu trabalho permanecer fiel à liberdade e à responsabilidade, eles poderão estar a contribuir para que esta fase de letargia seja a mais curta possível.
Cornelius Castoriadis, A Ascenção da Insignificância
domingo, 7 de abril de 2013
terça-feira, 2 de abril de 2013
há mar e mar há ir e voltar
regressar é quase como viver: olha-se para as horas. são seis e meia a madrugada move-se negra hoje o tempo mal se distingue no relógio pequeno em cima da mesa. há tanto para contar mas não vale a pena o tempo é indistinto e o que fosse dito agora já o teria sido num tempo antes ou mesmo escrito por outras mãos com dedos a apertar a caneta vincando o papel de peripécias pensamentos imagens afectos e desafectos e essas coisas todas que fazem vidas.
escrever é sempre um regresso. se há que voltar também há que escrever. só mesmo por isso. já tudo foi dito. enquanto para lá das vidraças o céu se abre em dilúvio e as luzes brancas trilham os céus incendiando o coração em sobressaltos a mente absorve o cansaço da busca da forma para dizer exactamente o mesmo de antes. há seres antiquíssimos a povoar as ideias e os actos do agora. o relógio pode parar mas as horas são de repetição.
o vento parou não sei porquê e a chuva entretanto inunda a atmosfera de odores misturados a chuva no asfalto a chuva nas ervas selváticas que minam jardins abandonados a chuva nos corpos desprotegidos o óleo na chuva que corre no asfalto.
a subir a serra a subir a serra e a descer a serra tempo de regresso. para cima o ar carregado de névoa. o vislumbre das laranjas pesadas prestes a tombar. o verde molhado português. até à costa junto ao alarido das gaivotas o rio pesado por entre as palmeiras. tempo de regresso tempo de repetir e voltar a dizer com sentido o sem sentido. tempo de deixar amarelecer as imagens e de esperar as flores. o barquinho de pesca oscila na memória e navega devagar no pensamento. até ao mar aberto depois das janelas que a manhã ilumina pouco a pouco até ao cheiro a maresia. ao longe os navios fogem do presente. só depois disso sei que é hora de voltar.
sábado, 30 de março de 2013
sexta-feira, 29 de março de 2013
O Amigo
(...) o amigo é pois o outro si mesmo - Aristóteles
trata-se de um pequeno texto de Agamben sobre 'o amigo', 'a amizade'. interessante, parece-me, no tempo dos milhares de amigos do FB, repensar: 'o que é um amigo?'. Agamben parte de um texto de Aristóteles sobre o mesmo tema (da Ética a Nicómaco) para nos levar a pensar 'o amigo' como aquele que existe sem ser exactamente um outro, mas sim enquanto um modo de ser 'nós mesmos', ou seja, nas palavras de Agamben, o amigo é um tornar-se outro do mesmo, ou ainda, a amizade é esta des-subjectivização no próprio coração da mais íntima sensação de si. afinal, esta problemática do amigo conduz-nos à chamada filosofia primeira. mas mais não digo, o texto aí está (facto notável, neste Portugal às vezes tão pequenino) à disposição de leituras e leituras...
é de ler e ficar a pensar, para depurar os horizontes.
um verso e meio de Hélia Correia
com votos de Boa Páscoa a todos e, em especial, ao colega e amigo que me sugeriu a poesia. Obrigada!
Nós, os ateus, nós, os monoteístas,
Nós, os que reduzimos a beleza
A pequenas tarefas, nós, os pobres
Adornados, os pobres confortáveis.
Os que a si mesmos se vigarizavam,
Olhando para cima, para as torres,
Supondo que as podiam habitar,
Glória das águias que nem águias tem,
Sofremos, sim, de idêntica indigência,
Da ruína da Grécia.
Etiquetas:
Hélia Correia. Boas sugestões.
quinta-feira, 28 de março de 2013
terça-feira, 26 de março de 2013
segunda-feira, 25 de março de 2013
Algarve
| Praia da Rocha - foto AP |
O Algarve é grande pelas flores pelas rochas pelas árvores pela luz. Tem praias nuas tem água à temperatura de não ter frio tem figos como ninguém tem tem casas caiadas de azul como ninguém tem tem Dom Rodrigos tem tem amêndoas como ninguém tem tem cheiro a caravelas tem tem, e o corridinho tem ou não tem?
(...)
Uma noite de luar na Praia da Rocha é espectáculo que deve ser visto pelo menos duas vezes na vida - a praia acorda de entusiasmo e fica a bailar com as ondas - a luz quebra-se na espuma e as rochas admiram-se de tanta brincadeira.
Ruben A., Páginas (VI)
sábado, 23 de março de 2013
bem pequeninas estórias
era uma vez uma mulher
e um homem
com palavras
e disseram-se muitas
as dele tinham muitas qualidades
as dela pendiam p'ras virtudes
usaram palavras doces
amargas frias ternas e fraternas
palavras apaixonadas corpóreas pesadas e sonoras
brincaram palavrosamente
por longos tempos em construção
e até fizeram coisas sérias
porque não?
um dia quase gastas as palavras
alheios à escassez de tudo
fez-se um pequeno silêncio
cortado pela experimentação
decidiram então
usar a linguagem técnica
num território por explorar
ele disse
quero-te porque és sustentável
ela volveu
aqui tens o gráfico da tua atenção
no corrente ano
intensidade e duração
há uma quebra aqui meu plafond
bem sei
respondeu-lhe ele
podemos negociar
sugeriu ela
não quero ser-te um imposto
e assim se aproximaram
do amor financeiro
ou das finanças do amor
mas eis que surgiu economicamente
um grande silêncio
andam agora a inventar palavras
e
se bem me lembro
os grandes silêncios são muito palavrosos
AP
e um homem
com palavras
e disseram-se muitas
as dele tinham muitas qualidades
as dela pendiam p'ras virtudes
usaram palavras doces
amargas frias ternas e fraternas
palavras apaixonadas corpóreas pesadas e sonoras
brincaram palavrosamente
por longos tempos em construção
e até fizeram coisas sérias
porque não?
um dia quase gastas as palavras
alheios à escassez de tudo
fez-se um pequeno silêncio
cortado pela experimentação
decidiram então
usar a linguagem técnica
num território por explorar
ele disse
quero-te porque és sustentável
ela volveu
aqui tens o gráfico da tua atenção
no corrente ano
intensidade e duração
há uma quebra aqui meu plafond
bem sei
respondeu-lhe ele
podemos negociar
sugeriu ela
não quero ser-te um imposto
e assim se aproximaram
do amor financeiro
ou das finanças do amor
mas eis que surgiu economicamente
um grande silêncio
andam agora a inventar palavras
e
se bem me lembro
os grandes silêncios são muito palavrosos
AP
redução à sensação
Manhã no mar a olhar para a terra, manhã na terra a olhar para o mar, dias de fantásticas miragens, sem lemes na embarcação, sereias só na imaginação, toninhas a dançar, e o escaler começa a afastar-se. (...)
Não importa dias de férias, dias feriados, dias infinitos, tanto faz chegar tarde como não chegar, é preciso é estar. Sensação boa, livre, mesmo para quem não tem um tostão.
Ruben A., Páginas (VI)
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