segunda-feira, 8 de abril de 2013

E vós, Tágides minhas...

A filosofia mostra-nos que seria absurdo acreditar que um dia esgotaremos o que é pensável, o que pode ser feito e formado, da mesma maneira que seria absurdo colocar limites ao poder de formação que jaz sempre na imaginação psíquica e no imaginário colectivo sócio-histórico. No entanto, não nos impede de constatar que a humanidade atravessou períodos de enfraquecimento e de letargia, tanto mais insidiosos porquanto acompanhados por aquilo a que se convencionou chamar um «bem-estar material». Na medida em que isso depende, em maior ou menor grau, daqueles que têm uma relação directa e activa com a cultura, no caso de o seu trabalho permanecer fiel à liberdade e à responsabilidade, eles poderão estar a contribuir para que esta fase de letargia seja a mais curta possível.
Cornelius Castoriadis, A Ascenção da Insignificância

domingo, 7 de abril de 2013

flux

e se o nosso movimento for retrocesso?


terça-feira, 2 de abril de 2013

há mar e mar há ir e voltar

regressar é quase como viver: olha-se para as horas. são seis e meia a madrugada move-se negra hoje o tempo mal se distingue no relógio pequeno em cima da mesa. há tanto para contar mas não vale a pena o tempo é indistinto e o que fosse dito agora já o teria sido num tempo antes ou mesmo escrito por outras mãos com dedos a apertar a caneta vincando o papel de peripécias pensamentos imagens afectos e desafectos e essas coisas todas que fazem vidas.
escrever é sempre um regresso. se há que voltar também há que escrever. só mesmo por isso. já tudo foi dito. enquanto para lá das vidraças o céu se abre em dilúvio e as luzes brancas trilham os céus incendiando o coração em sobressaltos a mente absorve o cansaço da busca da forma para dizer exactamente o mesmo de antes. há seres antiquíssimos a povoar as ideias e os actos do agora. o relógio pode parar mas as horas são de repetição. 
o vento parou não sei porquê e a chuva entretanto inunda a atmosfera de odores misturados a chuva no asfalto a chuva nas ervas selváticas que minam jardins abandonados a chuva nos corpos desprotegidos o óleo na chuva que corre no asfalto.
a subir a serra a subir a serra e a descer a serra tempo de regresso. para cima o ar carregado de névoa. o vislumbre das laranjas pesadas prestes a tombar. o verde molhado português. até à costa junto ao alarido das gaivotas o rio pesado por entre as palmeiras. tempo de regresso tempo de repetir e voltar a dizer com sentido o sem sentido. tempo de deixar amarelecer as imagens e de esperar as flores. o barquinho de pesca oscila na memória e navega devagar no pensamento. até ao mar aberto depois das janelas que a manhã ilumina pouco a pouco até ao cheiro a maresia. ao longe os navios fogem do presente. só depois disso sei que é hora de voltar.

sábado, 30 de março de 2013

sexta-feira, 29 de março de 2013

O Amigo

(...) o amigo é pois o outro si mesmo - Aristóteles

trata-se de um pequeno texto de Agamben sobre 'o amigo', 'a amizade'. interessante, parece-me, no tempo dos milhares de amigos do FB, repensar: 'o que é um amigo?'. Agamben parte de um texto de Aristóteles sobre o mesmo tema (da Ética a Nicómaco) para nos levar a pensar 'o amigo' como aquele que existe sem ser exactamente um outro, mas sim enquanto um modo de ser 'nós mesmos', ou seja, nas palavras de Agamben, o amigo é um tornar-se outro do mesmo, ou ainda, a amizade é esta des-subjectivização no próprio coração da mais íntima sensação de si. afinal, esta problemática do amigo conduz-nos à chamada filosofia primeira. mas mais não digo, o texto aí está (facto notável, neste Portugal às vezes tão pequenino) à disposição de leituras e leituras...
é de ler e ficar a pensar, para depurar os horizontes.

direitos (ainda) humanos

Roland Topor (1938-1997), Droit à la paresse - 1989

um verso e meio de Hélia Correia

com votos de Boa Páscoa a todos e, em especial, ao colega e amigo que me sugeriu a poesia. Obrigada!

Nós, os ateus, nós, os monoteístas,
Nós, os que reduzimos a beleza 
A pequenas tarefas, nós, os pobres
Adornados, os pobres confortáveis.
Os que a si mesmos se vigarizavam,
Olhando para cima, para as torres,
Supondo que as podiam habitar,
Glória das águias que nem águias tem,
Sofremos, sim, de idêntica indigência,
Da ruína da Grécia.

Hélia Correia in A Terceira Miséria 

quinta-feira, 28 de março de 2013

terça-feira, 26 de março de 2013