segunda-feira, 2 de julho de 2012

as mãos

o que as mãos dizem o que revelam ou expressam... tantas vezes mais que um rosto. acontece encontrarmos umas postas assim... enaltecer-lhes o encanto e a imensidão. apetece até dizer: estavas linda Inês posta em sossego... mas estas vêm do Caravaggio (1986), de Derek Jarman. uma preciosidade.


domingo, 1 de julho de 2012

Mona Prince


Mona Prince, blogger da Primavera Árabe, é também escritora. Em conversa com Nuno Rogeiro, no programa Sociedade das Nações, considerou o caos como não perigoso. Eu acrescentaria: não é perigoso desde que seja transitório e de muito curta duração. Se atendermos à actual situação da Síria, o caos já é mais do que perigoso: é inaceitável. Por outro lado, Mona admitiu ser a religião um factor absolutamente determinante no seu país. No entanto, do seu ponto de vista, ela é hoje vivida sobretudo no que diz respeito aos aspectos formais, existindo, por outro lado, uma notória ausência dos valores correspondentes.
É interessante conhecer esta voz feminina que nos chega do Egipto - ver entrevista. Pelo que pude saber, a sua literatura é tida como caótica. Não deve ser por acaso. Pode ler-se alguma coisa do que escreve, por exemplo, no seu blogue: Mona Prince.

sábado, 30 de junho de 2012

STING

ontem foi dia de festa, aqui pelas minhas bandas. oportunidade para rever Sting ao vivo e lembrar um concerto de outros tempos: o dos Police.


a lua brilhava bem alto por entre umas nuvens esparsas. uma noite mágica: com a magia da música e a da amizade. enquanto Sting tocava The Book Of My Life...



Let me watch by the fire and remember my days
And it may be a trick of the firelight
But the flickering pages that trouble my sight
Is a book I'm afraid to write

It's the book of my days, it's the book of my life
And it's cut like a fruit on the blade of a knife
And it's all there to see as the section reveals
There's some sorrow in every life

If it reads like a puzzle, a wandering maze
Then I won't understand til the end of my days
I'm still forced to remember,
Remember the words of my life

There are promises broken and promises kept
Angry words that were spoken, when I should have wept
There's a chapter of secrets, and words to confess
If I lose everything that I possess
There's a chapter on loss and a ghost who won't die
There's a chapter on love where the ink's never dry
There are sentences served in a prison I built out of lies.

Though the pages are numbered
I can't see where they lead
For the end is a mystery no-one can read
In the book of my life

 There's a chapter on fathers a chapter on sons
There are pages of conflicts that nobody won
And the battles you lost and your bitter defeat,
There's a page where we fail to meet

There are tales of good fortune that couldn't be planned
There's a chapter on god that I don't understand
There's a promise of Heaven and Hell but I'm damned if I see

 Though the pages are numbered
I can't see where they lead
For the end is a mystery no-one can read
In the book of my life

Now the daylight's returning
And if one sentence is true
All these pages are burning
And all that's left is you

 Though the pages are numbered
I can't see where they lead
For the end is a mystery no-one can read
In the book of my life


[Sting é um excelente músico e a organização do concerto está de parabéns!]

Fotos: A.P. (antes do concerto)

sexta-feira, 29 de junho de 2012

dissociação

o problema das grandes construções teóricas é serem quase sempre tão perfeitas e arrumadinhas que até chateia. mas este é só um aspecto a ter em conta. porque é claro que não podem reflectir a realidade ou ter nela verdadeira aplicação. servem, portanto, presumo, para alguns viverem no jardim das delícias auto-satisfatórias - e aí tudo corre às mil maravilhas. o terreno no qual as coisas efectivamente acontecem, porém, é outro. confrontados com ele, podem os donos da perfeição chegar a negar a sua existência. mas como é a ele que pertencem, seres iguais aos outros, de carne e osso, será necessário concluir que também eles pecam por imperfeição. ora, bolas!

quinta-feira, 28 de junho de 2012

quarta-feira, 27 de junho de 2012

o belo enquanto sombra

Landscape, de Kumi Yamashita

(...) nós os Orientais criamos beleza ao fazermos nascer sombras em locais por si mesmos insignificantes.

Ramagens
se as juntarem e enlaçarem
uma cabana surge
desenlaçai-as e tereis
como antes a planura

diz o velho poema, e, afinal de contas, o nosso pensamento actua segundo um raciocínio análogo: creio que o belo não é uma substância em si, mas apenas um desenho de sombras, um jogo de claro-escuro produzido pela justaposição de diversas substâncias. Tal como uma pedra fosforescente que emite brilho quando colocada na escuridão e ao ser exposta à luz do dia perde todo o fascínio de jóia preciosa, também o belo perde a sua existência se lhe suprimirmos os efeitos da sombra.
Junichiro Tanizaki, Elogio da Sombra

domingo, 24 de junho de 2012

a imagem pode ser esbatida mas a lembrança é clara


Cosmopolis


Ora, aqui está: um homem à espera do nada. E é essa a sensação número um de Cosmopolis (2012), de David Cronenberg. Diga-se a verdade, se há horror maior para mim, é o do confronto com o nada, o de encarar o vazio - afinal, o verdadeiro horror consiste em afirmar a sua realidade. É que o nada não existe, e o mais parecido com algo dessa natureza só pode ser um momento de transição entre uma coisa e outra. Digo eu.
Cosmopolis é um filme desagradável e difícil de acompanhar até ao fim. Podem dizer-se muitas coisas sobre ele. Mas certos aspectos merecem ser sobretudo analisados pelos especialistas de cinema, e outros, não sei, talvez pelos que antecipam deterministicamente o futuro. Eu não gostei do filme, nem o considero uma obra maior do realizador. Também não gostei da mensagem transmitida, nem sou fã do tom absolutamente cáustico de Don DeLillo, embora lhe reconheça valor literário e o considere uma boa voz de diagnóstico do mal-estar da civilização. No entanto, este é um verdadeiro filme de Cronenberg. Está lá o horror, a paranóia, a metamorfose da realidade, a relação com a máquina, etc. Mas está presente também um projecto altamente intelectual do realizador - o de mostrar cinematograficamente o poder da palavra, e a sua profunda violência. Neste filme, ela consiste num emprestar ao que se diz um dos tons mais monocórdicos e desencantados de que tenho memória. Um verdadeiro mal-estar, uma limousine claustrofóbica e o sem sentido de tudo que nos remete para um estado zero da existência. É quase dilacerante, mas também muito aborrecido, o retrato de uma sociedade tão disfuncional. Mas está lá o talento de Cronenberg, e em muitos detalhes. Sem dúvida, o projecto era um daqueles difíceis de concretizar, incluindo grande dose de diálogos desencantados e esse delirante absurdo do vaguear estupidificante pelas ruas de uma cidade onde nem a revolta faz qualquer sentido. Porque não há alternativas. Porque nem o refúgio tão up to date na espiritualidade parece conseguir resistir, olhando a morte dessa figura simbólica de um rapper sufi. O seu funeral, reconstituído brevemente, fez-me lembrar, numa das cenas de que mais gostei, esse outro funeral, vivido de forma tão intensa e mortificadora, em Imitação da Vida (1959), de Douglas Sirk. Mas como estamos longe de todo esse kitsch e de todas essas emoções aí exacerbadas...
Não sei se o niilismo em que somos levados a mergulhar pretende suscitar uma visão reformadora do capitalismo, ou se reclama uma alternativa que permanece ainda numa qualquer zona desconhecida e envolta em sombras do conhecimento humano. Mas o filme não termina por acaso com as pinturas de Rothko, por entre as fichas técnicas. De todo o modo, comparando este filme com Era uma vez na Anatólia, que vi recentemente, apetece-me dizer, analisando um pouco os dois filmes com um olhar algo hegeliano, que este último mostra o mal-estar de uma sociedade, a qual, face às duras condições de vida, quer ser Europa, e ainda acredita no capitalismo como via para o bem-estar social; ao passo que Cosmopolis mostra uma sociedade numa fase posterior do tal desenvolvimento, e que, uma vez supostamente esgotado o modelo adoptado, agora em plena decadência, reclama transformação.
Resta-me ir ver O Cavalo de Turim, para reflectir um pouco mais sobre este "chamar a atenção" para o desencanto total que a civilização ocidental parece ter gerado, e que o cinema procura veicular artisticamente. Indubitavelmente, é preciso activar toda a esperança ainda disponível dentro de nós, para aguentar tanto niilismo. Mas ignorar não vale, pois não?
Cosmopolis fez-me lembrar, de certo modo, aquelas psicopatias que levam algumas pessoas a infligir a si próprias dor. Se a sociedade está doente e indiferente, a esperança é a de que acorde!, mas para algo melhor. O problema é que, disso, o filme nada mostra.

quinta-feira, 21 de junho de 2012