terça-feira, 12 de junho de 2012

poesia e acesso à realidade

Tomas Tranströmer recebeu o Nobel da Literatura em 2011. trata-se de um poeta que me é desconhecido, e acerca do qual pretendo saber algo mais... por outro lado, pareceu-me interessante o motivo invocado pela Academia Sueca para a atribuição deste prémio: "... porque nos possibilita um acesso fresco à realidade". ora, esta designação de frescura, adjectivo que já li algures ser criticado por algumas pessoas, na medida em que faz lembrar legumes ou fruta fresca... bom, a verdade é que eu não desgosto do termo. e não quero discorrer muito sobre. mas a questão de um acesso à realidade interessa-me. o que pressupõe que, se calhar, estamos mergulhados na realidade, mas não a vemos tal e qual. coisa que o poeta será capaz de fazer. ou então, vemos a realidade, sim, mas sempre segundo o nosso prisma. que pode não ser tão fresco como o de Tomas Tranströmer. é mesmo tudo isto que penso gostarei de averiguar um pouco. este vídeo que aqui trago ajuda a conhecer melhor o autor.
  

mas que nada

ensaiei um olhar de resistência pacífica. olhei o abjecto e contive-me. na lama boiavam pedaços de espinha dorsal. dizem que o homem é sapiens sapiens e eu duvido. é devagar que se aprende a sustentar o brilho das luzes e o ruído sibilante das vozes. nunca se pode medir com precisão a quantidade exacta. ou o peso concreto. a parte do eu que pactua com o intolerável. rejeito a festa dos importantes ao cair da noite. não concebo perder nem mais um grama de ser. o peso maior sustenta-se no silêncio. amanhã cumprimenta-se a iniquidade vitoriosa. sustém-se a superficialidade levezinha da fama que singra nesta fábrica urbana de tiradas tóxicas. transportadas de cá para lá. e de lá para cá. há jovens descrentes. fazê-los sorrir é abrir a janela. o mundo inteiro concentrado numa flor. a única matéria que quero estudar. eu mesma na metafísica do sorriso. e os outros na biologia da flor.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

sábado, 9 de junho de 2012

Prometheus

Ridley Scott está de volta com mais uma tremenda aventura situada num possível futuro da humanidade. Quem lembra Blade Runner, ou Alien - O 8º Passageiro (e sequências), tem agora oportunidade de encontrar em Prometheus as esperadas (ou não) reminiscências desses filmes de culto - a boa ficção científica fundida com o terror da saga Alien. Eu sou apreciadora do género, embora aqueles seres tremendos com os quais a Sigourney Weaver lutou me provoquem, obviamente, a maior repugnância e horror. Claro, quem os imaginou e criou para o cinema, não o fez por acaso. Mas isso é outra história. Em Prometheus, esses seres absolutamente repugnantes e horrendos dão um ar da sua graça. Quero dizer com isto: aparecem, mas não dominam em absoluto a narrativa. O que pode ser decepcionante para alguns. Para mim, é um aspecto positivo. O filme consegue ser mais profundo e problemático (e, até certo ponto, metafísico), ao colocar perante o espectador alguns temas de sempre, e outros cada vez mais pertinentes e actuais: desde logo, somos confrontados com a ilimitada curiosidade do ser humano, levados a questionar o papel da ciência no futuro da humanidade, e a inquietarmo-nos, curiosos, perante o mistério e o desconhecido: de onde viemos?, porque estamos aqui?, quem (ou o que) nos criou? - ou seja, também uma boa dose de criacionismo versus evolucionismo; mas o filme é igualmente um olhar sobre as possíveis relações entre humanos e robôs, na medida em que estes parecem tornar-se cada vez mais parecidos connosco - neste ponto, é de destacar a excelente interpretação de Michael Fassbender no papel do andróide David, actor de quem já tinha a melhor opinião, a partir da reconstituição do seu Jung em Um Método Perigoso de David Cronenberg.


Do ponto de vista da imagem, Prometheus é esplendoroso e perfeito. Vi o filme a 2D, mas os apreciadores do 3D têm possibilidade de entrar neste universo com maior impacto ainda, suponho.


No entanto, a grande cena, a que ficará certamente para a história, é protagonizada por Noomi Rapace - que já tinha chamado a atenção em Millennium 1. Os Homens que Odeiam as Mulheres. Trata-se de uma cena que envolve uma louca cirurgia, realizada em condições totalmente radicais, experimentando os limites da sobrevivência - só para quem consegue ver! eu tapei um pouco os olhinhos... mas, depois, abri-os!


O filme tem as suas limitações, assinalo. Nomeadamente, deixa as interessantes questões que coloca apenas a pairar, sem lhes dar a densidade esperada. A partir de certa altura, dá-nos a certeza de que ficou uma porta aberta para a continuidade da saga - um Prometheus 2, pois claro. Por mim, seriam dispensáveis algumas cenas e certos tiques do género ficção científica, quero dizer, tudo o que compromete a possibilidade de tornar este filme verdadeiramente inovador do ponto de vista da narrativa. Mas é preciso pensar no objectivo "sucesso de bilheteira" - dirão eles, certamente.


Uma nota ainda para o design dos cenários e dos seres fantásticos e horrendos: criado a partir dos delirantes pesadelos surrealistas (digo eu) de HR Giger (tal como na série Alien) - verdadeiramente fantásticas!, as naves espaciais, vedetas também deste filme.


quinta-feira, 7 de junho de 2012

é só um minutinho


para esticar o tempo



o eu dos médecins-philosophes


Queria fazer-lhe uma pergunta, disse o doutor Cardoso, o senhor conhece os médecins-philosophes? Não, confessou Pereira, não conheço, quem são? Os principais são Théodule Ribot e Pierre Janet, disse o doutor Cardoso, foram os textos deles que estudei em Paris, são médicos e psicólogos, mas também filósofos, defendem uma teoria que me parece interessante, a da confederação das almas. Explique-me essa teoria, disse Pereira. Pois bem, disse o doutor Cardoso, acreditar que somos uma unidade independente, destacada da incomensurável pluralidade dos próprios eus, representa uma ilusão, aliás ingénua, de uma alma única de tradição cristã; o doutor Ribot e o doutor Janet vêem a personalidade como uma confederação de várias almas, porque a verdade é que temos várias almas dentro de nós, uma confederação que aceita o domínio de um eu hegemónico. O doutor Cardoso fez uma pequena pausa e depois continuou: O que se chama a norma, ou o nosso ser, ou a normalidade, é apenas um resultado, não uma premissa, e depende do controlo de um eu hegemónico que se impôs na confederação das nossas almas, caso surja um outro eu, mais forte e mais poderoso, ele vai destronar o eu hegemónico e tomar o seu lugar, passando a dirigir a coorte das almas, ou melhor a confederação, e essa superioridade mantém-se até ser destronado por seu turno por outro eu hegemónico, por ataque directo ou por uma paciente erosão. Talvez, concluiu o doutor Cardoso, depois de uma paciente erosão haja um eu hegemónico que está a assumir a chefia da confederação das suas almas, doutor Pereira, e o senhor não pode fazer nada, o mais que poderá fazer é apoiá-lo. (...) talvez haja dentro de si um eu hegemónico que, depois de uma lenta erosão, depois de tantos anos passados no jornalismo a escrever os casos do dia crendo que a literatura fosse a coisa mais importante do mundo, (...) está a tomar a direcção da confederação das suas almas, deixe-o vir à tona, até porque não pode fazer de outra maneira, não o conseguiria e entraria em conflito consigo próprio (...).
Antonio Tabucchi, Afirma Pereira 

Ray Bradbury (1920-2012)


 


quarta-feira, 6 de junho de 2012

discursos de fugir


 breve registo patente na Fortaleza de Peniche.
 lembremos pois. um modo de ser anti. pró-restritivo. pró-autoritário no pequenino.


segunda-feira, 4 de junho de 2012

Fly:


é o que quero fazer. mas só quando o trabalho abrandar. agora, é o tempo que voa: "this is your captain speaking" !